Crônica social: Banho politizado ou banho de gato?

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por Fernando Cássio, em julho de 2015

Recentemente, a situação financeira imposta ao país têm provocado uma mudança radical nos costumes dos brasileiros. A preocupação passou a conviver com a necessidade diária em reduzir, economizar e racionalizar despesas, em função das surpresas mensais das faturas dos serviços públicos, nos gêneros alimentícios e no próprio encurtamento do poder de compra, amparados pela explosão inflacionária de 02 dígitos. Um desafio diário no cotidiano de todos. A atividade prazerosa e saudável do banho, assessorada pelos cosméticos, que dão garantias de até 72 horas, passou a ser uma penosa e árdua tarefa, competindo com o exercício aquático da reflexão político-econômica, na legítima preocupação financeira e matemática da sobrevivência do lar, contrapondo à  falta de confiança, crença  e legitimidade,  de tudo que é derivado dos governos e suas concessões. 

Quem não se lembra, ao abrir a torneira, do registro da energia correndo acelerado atrás dos limitados proventos,  para cobrir a incompetência administrativa dos governos do PT, na falta de infraestrutura e na  má condução do segmento energético, além da evidente incompetência das empresas operadoras de energia, através dos seus serviços, terceirizados e quarterizados, ágeis apenas no corte?

Quem não se lembra, ao abrir a torneira,  da escassez  angustiante da água, entre a saída do chuveiro até a sua entrada pelo ralo,  na força da intempérie climática, na inoperância pública, na falta de inovação e no registro financeiro das contas,  imputando rapidamente a dívida e o ônus, exclusivamente às residências, pela falta de investimentos, pela desordem urbana, pela má distribuição histórica do produto, além da contribuição do ar nos canos enferrujados?

Mas, se já não bastassem os fatos que consomem as preocupações, as fontes naturais e nutrem a fonte tributária, sem caracterizar  proporcional evidência de melhoria na qualidade do trato da substância (líquida, incolor, insípida e inodora), o curto espaço na lavagem cerebral, essencial à vida, têm provocado em Recife, uma nova tensão corporal, quando surgiram novas propriedades: cor, odor e oleosidade!

Valei-me, Santa Maura de Troyes, protetora das lavadeiras. Valei-me, São Francisco de Assis, protetor dos animais e da ecologia. E um salve todos, para a Santa Edwiges, protetora dos endividados! Talvez, daqui adiante, seja viável apenas a modalidade do banho de gato! Pois, essa transparência buscada nas águas, somete contribui para sujar, ainda mais, a alma e, sobretudo, a lucidez dos pensamentos…..

Crônica Social: Concurso Nacional – Fator Previdenciário

Fator

por Fernando Cássio, em junho de 2015

Pressão para o Fim do Fator Previdenciário! Se ficar o bicho pega e se correr o bicho come. Se aprovar, o governo Dilma se desgasta economicamente, e se vetar, se desgasta politicamente, com o Congresso e a população, de hoje e do amanhã! O veto é provável. E o Governo Dilma abrirá caminho para um Concurso Nacional, tendo como garoto propaganda o Jó Soares. Ganha aquele que encontrar a melhor solução para equilibrar o Sistema Previdenciário. Os especialistas e seus censos enigmáticos adiantam que há sobreviventes demais. Os desmandos públicos estão sendo ineficientes para provocar e ampliar o stress e garantir a redução no prazo de validade da vida brasileira. Não serão aceitas as proposições que versam sobre a mortalidade em grande escala. Será fator de desclassificação, além da ilegalidade “temporária” do ato. Adiantamos aqui, em primeira mão, algumas alternativas que podem ser trabalhadas, na manutenção do maniqueísmo que o tema projeta: (1º) Será proibido envelhecer; (2º) Cada brasileira terá, obrigatoriamente, a missão de gerar mais filhos, cadastrando, ainda no ventre, os novos contribuintes financeiros. E essa produção deverá ser controlada e gradualmente ampliada a cada ano; (3º) O processo de aposentadoria será automatizado, cabendo à implantação de chips que indicarão a execução do evento a partir dos 100 anos de idade, indistintamente para macho ou fêmea, em função da qualidade dos cosméticos e alimentos enriquecidos com vitaminas  e Botox.

Uma saída engraçada, se o tema não fosse tão cruel e trágico, pois mexe com as expectativas e perspectivas de cada um de nós. Do nosso presente, futuro e do futuro dos nossos! Quem visita o site da Previdência Social do Brasil (www.previdencia.gov.br) vai encontrar intenções publicadas que, de cara, destoam da realidade. Senão, vejamos: “… A Previdência Social é o seguro social para a pessoa que contribui”. Sua missão é garantir proteção ao trabalhador e sua família, por meio de sistema público de política previdenciária solidária, inclusiva e sustentável, com o objetivo de promover o bem-estar social…”. Como não estranhar tal vazio de palavras, na ausência ou inexistência de um modelo eficiente e na incapacidade política, ao longo da história!

Mas, sem condições gerenciais sobre os desvios e ilicitudes, sem conseguir vedar os vazamentos no erário, sem contenção dos gastos, sem legitimidade e sem utilizar-se de outras formas ou fontes (entre as quais, por exemplo, as riquezas do país, nos dividendos das commodities do Pré-Sal), não há como imaginar qualquer equilíbrio ou viabilidade. Que apareça, então, um cristo ou gênio! Um novo Albert Einstein para defender uma nova equação e vitalidade. Que consiga repassar o sentido do  desequilíbrio existencial onde funciona essa  matéria. Assim como é a natureza da motocicleta, na teimosia com a gravidade.  Que pense diferente e saia da caixinha. Que seja suficiente ardiloso para entender que as questões sociais, políticas e  econômicas são díspares e de difícil encaixe. Porém, não são impossíveis de enquadramento. Que seja corajoso e salve os novos e futuros velhinhos, assim como àqueles que ainda sobrevivem às experimentações dos laboratórios, na forma de governos. Quem sabe o Zé, do café….  Quem sabe um “déjà vu”……

Crônica Social: Fraquezas ideológicas e fraquezas estatais no Brasil

falencia e fracasso

por Fernando Cássio, em junho de 2015

Conforme registros do Tribunal Superior Eleitoral – TSE, existem 32 partidos políticos no Brasil, além dos outros tantos em processo de formação, aguardando legalização, como é o caso do “Rede Sustentabilidade”. A multiplicidade e a possibilidade de combinações de estilos e correntes partidárias evidencia a sopinha de letras,  com alto senso de criatividade em configurações, que referendam estatutos, objetivos e, acima de tudo,  propostas declaratórias  em defesa dos interesses civis e coletivos. Para o cidadão comum  e para o ser político, não partidário, há uma evidente dificuldade em entender e distinguir às vicissitudes político-ideológicas,  que multiplicam  partidos e sustentam motivações, lastreando coalizões, fusões, coligações e migrações de políticos e  grupos, em diversos períodos históricos do país. Afinal, que senso lógico poderíamos adotar para justificar tais trajetórias e mudanças repentinas, evitando configurar a superficialidade das motivações, nos discursos e promessas que comprometem tais exercícios cívicos? Que justificativas caberiam ser ofertadas,  contradizendo o cenário de interesses menores, cuja objetividade é a busca do poder e das vantagens a ele  atreladas? Contudo, nosso objetivo não é incitar a destruição da natureza pública, mas registrar o desconforto diante de um cenário de mazelas e comportamentos distorcidos, que se tornaram  frequentes no noticiário brasileiro, envolvendo agentes e administrações públicas. Em resumo, antecipamos um cruel achado: embora são aplicados vultosos investimentos, enxerga-se uma viciada produção em infraestrutura e outros serviços, com baixo grau de qualidade, degenerativos e de alto custo, cuja durabilidade não atende aos olhares dos mais desatentos cidadãos, o que determina um conjunto de fraquezas e uma clara demonstração de abandono, ineficiência e desatenção aos anseios populares.

Nesse mar de dúvidas, fixa-se como única certeza a imagem desacreditada do político e das instituições sob sua tutela, entre desmandos, lentidão, burocracia, descontinuidade de ações e baixo valor agregado na produção dos serviços e responsabilidades públicas. Uma desconfiança sobre tudo que se constrói a partir das engrenagens partidárias e institucionais, produzidas por Brasília, nos Estados e Municípios, através das três esferas públicas (Executivo, Legislativo e Judiciário),  que mobilizam e imobilizam esta nação. Infelizmente, isto é fato e o recado das ruas! Diante desta constatação,  retrocedemos! Retrocedemos no exercício da democracia. Afinal, o que poderia florescer diante da desconfiança e do descrédito? Ainda pior é imaginar que não conseguimos paralisar, dar um basta, estancar o crescimento maligno que deturpa e destrói a forma de agir dos autores e coautores,  entre  representações políticas e  gestores  hierarquicamente escravizados. Esse processo doentio vai além de sintomas pontuais e determina uma corrosão abrasiva, que se estende por todo o país. Destaca a fraqueza da Nação e do Estado diante, respectivamente,  da perda de qualidade dos valores e princípios que sustentam a coesão social e a cidadania, assim como a falta de agilidade institucional para contrapor ingerências, violações e contravenções. Nesse mesmo sentido, evolui e fortalece a pirataria que se mantém continua, saqueando o erário,  descoberta apenas pela imprensa investigativa, que invariavelmente coloca em cheque os órgãos de controle e fiscalização, expondo hábitos corriqueiros, que utilizam-se da burocracia e das facilidades jurídicas, concedendo privilégios para àqueles que cometem crimes contra este Brasil. Sem um antídoto, retrocedemos na medida da perplexidade diária, entre tantos desvios, artimanhas e conspirações, que destacam o interesse individual de grupos sobre o interesse coletivo e sobre o dinheiro público, na iminência da riqueza fácil. Evidência um modelo de gestão pública ineficaz e colaborativo com as práticas danosas. Assaltos que se diversificam até o nível de escândalos nacionais, proporcionados por numa perfeita cadeia produtiva. O Mensalão e o Petrolão exemplificam tais operações criminosas, que envolveram uma ampla conexão,  entre recursos públicos e diversos atores e níveis hierárquicos, em prol das ilicitudes. Confirma e demonstra a diversidade de ações envolvendo políticos, agentes públicos e fornecedores, atuando simultaneamente em diversos níveis do governo federal. Didaticamente, demonstram que existe um vírus ativo instalado, de difícil controle e combate, criado e recriado para subtrair. E quando se imagina um tentativa de recuperação, eis que surgem novos eventos de rapinagem, com descendências plenamente adaptáveis, sobrevivendo a qualquer pressão popular e policial, assim como pensou Charles Darwin, nos organismos que se fortalecem na Teoria da Seleção Natural. Carecemos, pois,  de uma assepsia moral  e um novo rumo! Reavaliar e recompor os princípios éticos e reduzir a complacência nacional.

Tais violações e doenças corporativas acometem a maioria dos municípios e estados brasileiros, onde as manifestações patológicas se manifestam com maior facilidade e incidência nas  organizações que carecem de recursos e tecnologias. A deficiência se projeta na ausência de sistemas de controle corporativo, dos mais simples aos mais complexos, que deveriam proporcionar informações gerenciais, freando e identificando anomalias administrativas. Esta é mais uma evidência nacional, ao longo dos 27 anos de exercício democrático, desde a Constituição de 1988. Constata-se que a deficiência estrutural é uma realidade e que o cenário é deliberadamente ou intencionalmente incapaz, embora, ao longo desses anos, repetidos projetos e  investimentos foram aplicados e consumidos sem que  o êxito atinja os mínimos resultados satisfatórios. Então, há de se questionar: porque existe e se mantém uma deficiência tão ativa e evidente na máquina pública? Porque não há foco nas decisões de planejar, executar e garantir implantações e evoluções?

A prática do clientelismo é um capítulo à parte na feitura dessas cortes e paços. As benesses  encontram estreita relação com o exercício do poder, na troca de favores e benefícios proporcionados por espaços e serviços forjados, que carregam a obrigação do retorno dos investimentos eleitorais. Mas, também retribui-se a lealdade eleitoral, com a distribuição de cargos comissionados, disponíveis em todos os órgãos e instituições públicas, de livre escolha e baixa exigência profissional. Mas, eis que surge um novo conceito, na tentativa de quebrar este ritmo – a meritocracia. Amplamente divulgada como uma nova prática salutar, já foi deformada pela pressão daqueles que desejam manter os costumes imperiais. No disfarce do aparente exercício do mérito, os processos de seleção interna, de alguns cargos, ocupam espaço publicitário e projetam factoides, encontrando, entretanto, apenas àqueles pré-escolhidos, determinados pelos tradicionais métodos de favorecimento, frustrando os gestores públicos com comprovado currículo em projetos e feitos.

Em função desse sombrio desenho, há de se imaginar uma latente e desenfreada distribuição de excessos, injustiças e incompetências que derivam das estruturas públicas, dos exercícios gerenciais e dos comandos. Então, como enquadrar o animal político, Aristotélico, convencendo-o da necessidade do seu posicionamento partidário, exigindo direcionamento quando não há sequer empatia com sua própria índole? Como encontrar sintonia na dualidade do  ambiente público, onde  divergem os interesses de Estado com os interesses partidários, disputando o mesmo espaço, entre o exercício do poder e as responsabilidades públicas?  E como  assegurar equilíbrio no mundo disfarçado do jeitinho brasileiro, na teimosia da  hereditariedade do continuísmo?

Retrata, enfim, um conturbado cenário de inseguranças e fraquezas! Ideologias como meras peças contratuais. Participações políticas exortadas em oportunismos. Representações públicas incapazes na execução das suas competências e no domínio. Representantes sem credibilidade e legitimidade. Posturas públicas à mercê de interesses momentâneos e flexíveis às conveniências das pressões de toda a ordem. População descrente, sem referências e lastro ético. Justiça sem equidade. E uma Nação desviada, caminhando de forma imprudente e sem lideranças.

E como tomar a direção correta? Inúmeros pensamentos de Sêneca seriam apropriados a este momento. Portanto, as inquietudes devem seguir adiante, com a devida carga de coragem, mesmo onde florescem os temores.

Carecemos de um Estado mais independente e desassociado da dominação política, inclusive da intervenção excessiva das movimentações ideológicas sobre o Estado? Carecemos de ampla profissionalização e seriedade na investidura de cargos e empregos efetivos, sem interferência, restritivo e privado unicamente às carreiras? Carecemos de maior participação popular através de plebiscitos eletrônicos, ampliando a responsabilidade e a participação da cidadania? Carecemos de maior eficiência, visão de futuro, responsabilidade  e responsabilização dos políticos, dos governos e das estruturas públicas?  Quais seriam as aspirações, expectativas e perspectivas morais e sociais deste país? Que futuro queremos e como vamos deixar este lugar para os nossos descendentes? Pense…

Crônica social: Quem será o melhor amigo do homem?

cao2por Fernando Cássio, em maio de 2015

Quem poderia expressar maior nível de dedicação servil e bajulação? Quem por vezes fica inquieto, distante ou aparentemente mudo, mas apenas sua presença condiciona uma aparente segurança? Quem permaneceria por mais tempo grudado junto ao dono, inclusive nas horas mais difíceis, subserviente, dependente e dominado, aguardando um comando? Quem acompanharia de perto os passos e as decisões, quase percebendo, por transmissão de pensamento, tudo aquilo que você almeja? O mundo gira e as inventividades alteram o curso das nossas vidas, inclusive os conceitos filosóficos e as movimentações sociais. Quem imaginou que o melhor amigo do homem seria o cachorro errou feio! Apego canino faz parte do passado. Quem imaginaria um objeto do tamanho da palma da mão, roubando a cena e a propriedade, que historicamente pertencia exclusivamente aos mamíferos canídeos? Ninguém poderia prever nada igual! Este espaço foi tomado de assalto pela tecnologia que criou o aparelho celular, cuja versatilidade venceu a disputa pela atenção humana. E mais precisamente o cobiçado “smartphone” (tradução literal de celular inteligente) que estabeleceu um novo marco na manifestação cultural da sociedade, impondo novos costumes e cacoetes associativos. Há de convir que algo mudou drasticamente neste planeta!

Cheio de funcionalidades, também atua como um ímã e um radar, simultaneamente, capturando e explorando o entorno do mundo, em nome do seu proprietário, muitas vezes por vontade própria, sem consentimento, antecipando múltiplas conexões com variadas coisas e tantos outros dispersos transeuntes, organizados informalmente em comunidades eletrônicas de interesse, partilhando fileiras intermináveis de informações. O ápice dessa radical mudança surgiu quando alguém entendeu que as coisas podem e devem interagir, assim como os humanos fazem, com a maior naturalidade. E chegaremos, no futuro bem próximo, como exemplo, quando a geladeira, a mercearia e o fogão estarão trocando ideias e informações, comandando a cozinha, sem interferência humana, fortalecendo o movimento feminista e rasgando definitivamente o modo de fazer as receitas, no antiquado modelo das vovós. Então, conectividade é a palavra de ordem! Mas nem tudo é perfeitamente pleno ou completo. Eles ainda são frágeis! A “criptonita” são os governos que debilitam as fantásticas e indescritíveis engrenagens digitais! A falta de sinal é a porta dos desesperados! Na maioria das vezes os celulares respondem por pesadas penas e críticas, quando tentam circular pelos invisíveis caminhos digitais, nas trilhas esburacadas da burocracia que mantém a infraestrutura das comunicações estatais. E aí, não há conexão ou aparelho que garanta desempenho absoluto! Pensando nisso, os fabricantes, em parceria, já estão desenvolvendo soluções próprias, que vão desde balões aos satélites particulares, sem a anuência ou participação das doutrinas ideológicas.

Exacerbando o direito da visão dualista, quase sacra, os smartphones, mais eficientes do que os chaveiros suíços e os escoteiros, possuem a seguinte composição: (a) corpo – elaborado com a preocupação do design competitivo, em redesenhos evolutivos captados psicologicamente nos desejos e na atração visual, adoçando a lucratividade através do apelo comercial de intermináveis versões; (b) alma – nos softwares aplicativos (APP) desenvolvidos e instalados diariamente para legitimar o elo entre as necessidades e carências humanas, ampliando o apego, a aproximação e a dependência; e (c) espírito – quando a tecnologia, em transe, alcança vínculos com outros no além, como um fenômeno mediúnico, um ritual de pajelança, umbanda, colocando em sintonia e em rede sentidos afins. Desta forma, explica-se, fundamentalmente, todo o ritual que envolve este conhecimento tecnológico.

Eis que todos os sentidos estão convergindo para um único ponto em comum. Ver, ouvir, sentir e falar estão sendo miniaturizados, acondicionados e empacotados nestes aparelhos. Não haverá nada que não possa ser mexido, cutucado, acionado, desligado, conectado ou abrangido, apenas por uma sequência de teclas ou pelo apelo do dedilhar dançante, simulando a execução de uma música na viola. Já não há mais descanso ou privacidade, nem mesmo na hora do banho. Estes bichinhos, que se tornaram aquáticos, atrelados à teoria darwiana, já acatam as profundezas e o infinito do céu, sem cerimônia diante da pressão atmosférica e outras interferências tradicionais. Porém, a privacidade perdeu seus segredos no advento deste dedo-duro, fuxiqueiro e entregador virtual. Vários problemas de separação já foram causados por uma mensagem não apagada ou um ângulo de foto não intencional, enviada para um endereço mal endereçado, na hora do pileque ou na desatenção provocada pelo capeta. Problemas sociais e prejuízos que afligem a todos (e a todas). Algo imperfeito, que requer adequação e melhorias! Quem sabe um APP que remonta a tela e os últimos comandos, quando o GPS localiza a aproximação de um dos cônjuges. Caberia aqui uma risada nossa, coletiva, se não fosse o drama que te persegue!

A invasão silenciosa do “tamagotchi” dos tempos modernos cria modismos e sequelas, infectando o vírus da dependência, como uma droga sintética. No passado, as mãos que viviam ocupadas pelos bolsos e no exercício do movimento educado da sinalização entre chapéus e sombrinhas que se cruzavam, deram espaço às chaves, que logo depois foram substituídas, exclusivamente, pelos celulares, quando não há organizadas sacolas em jogo. Isto implica em dizer que as pessoas reduziram a possibilidade de se dar às mãos, fortalecendo e ampliando apenas a sobrevivência solitária, atraídos pelas facilidades do mundo secreto, procurando outros tantos, com a mesma carência. Essa inversão criou um segundo mundo, em paralelo, e uma nova pele, para cada indivíduo, hipnotizados e atraídos pela procura incurável desse ambiente. Observam-se novos cacoetes e manias, visivelmente detectáveis, onde diversas pessoas circulam, gesticulando isoladamente, travando diálogos acalorados, sem que haja ninguém ao seu lado, senão os destacados fones de ouvidos embranquecidos. Outros tantos, caminham obedientes e cambaleantes, ocupados e desatentos com o cotidiano, perseguindo somente as pistas e rotas traçadas, como se estivessem sendo controlados pela máquina que os levam adiante. Uma tendência da sociedade. Quem sabe, um provável e largo passo para a idiotização ou robotização das mentes, anteriormente livres. De fato, merece destaque,  a nova composição que retrata o cotidiano, na evidente multiplicidade de transeuntes, de cabeças baixas e arqueados no andar, aparentemente  isolados e conectados, impulsionados por um mundo paralelo, com enorme capacidade para escravizar a atenção  e consumir o poder da criatividade individual. Quem sabe, um momento de transição entre gerações, embaralhando costumes e hábitos, com novas  formas de convivência e colaboração, amplificada pela tecnologia, pelo modismo e pelo oportunismo capital.

No Brasil, em março de 2015, foram comercializados mais de 283,4 milhões de aparelhos, cuja densidade é de 1,38 celulares por habitantes e uma projeção anual de quase 10 bilhões de unidades para serem consumidas. Venerados por várias correntes, entre usuários de todas as idades e crenças, envolvendo comerciantes, tecnólogos, projetistas, fabricantes, desenvolvedores e gente comum. Nada ou ninguém se compara em volume de interesse, foco ou convergência. Por sinal, você já parou para verificar quantas horas consegue ficar ausente, sem a sua mascote eletrônica? Reflita! Embora disponha da qualidade de aproximar, da maneira mais distante, interconectando pessoas, esta invenção, dita escravizante, na visão maniqueísta, carrega uma dualidade, quando permite criar relações biunívocas, de um para um e não de um para todos, no contraponto dos interesses comerciais, entre o capitalismo selvagem com o senso exacerbadamente coletivo do socialismo, onde possivelmente nunca haveria de ser produzida ou fabricada. Porém, individualizando, elevando, exacerbando e transportando emoções, de quebra ainda faz ligações, na medida do possível…..

Crônica social: Sombras e Saúde Corporativa

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por Fernando Cássio, em março de 2015

Vivenciar um ambiente corporativo exige estômago e energia, inclusive porque viver em grupo já é um exercício natural dos contrários, colocando em cruzamento pensamentos e desejos, díspares ou nem sempre iguais, exigindo o exercício diário da democracia no cotidiano de simulações e jogos que colocam as relações em evidência. Assim é na família, assim é em todos os recantos que transcorrem os relacionamentos de toda a ordem. Porém, nos ambientes funcionais exige-se uma uniformidade de princípios e comportamento. Uma ética, com foco específico! Exige-se sintonia e diretrizes. Equilíbrio na balança dos conflitos organizacionais, além de equidade.  Acima de tudo, há de existir propósitos, de forma que as forças de trabalho individuais sejam conduzidas para uma sinergia, convergindo para um único fim. Este é o esforço de cada liderança, seus executivos e envolvidos.  Possivelmente o sucesso da equação corporativa será positivo, caso haja garantia na força de coesão e nos engajamentos, que resultam de comprometimentos recíprocos e confiança. Acima de tudo, um desafio que deve ser incansavelmente praticado!

Enquanto no ambiente privado os processos são constantemente avaliados, exigindo-se eficiência e aderência à produção, com o marketing alavancando resultados e compromissos com a sobrevida dos negócios, no mundo governamental, porém, há uma inversão na aplicação de conceitos e dedicada atenção com outras questões nem tão relevantes com a dinâmica e com os resultados.  As iniciativas que propõem mudanças recebem alta carga de resistência, são fragilizadas e elasticamente acomodadas, assim como a produção e as perspectivas, quando os programas de governos imprimem ordens descontinuadas e exigem a anuência de gestores, que são capturados pelo domínio da propriedade momentânea da máquina pública, sem que haja as devidas preocupações com a hierarquia, confrontando, muitas vezes, interesses de Estado com interesses de governos e sem que haja, em muitos casos, alinhamento e endosso com os processos e com as pessoas.

Nota-se, inclusive, uma aparente acomodação da máquina pública diante dos estilos gerenciais trazidos pelos modelos ideológicos que ocupam o poder ciclicamente. Porém, mergulhando nas entranhas das máquinas públicas estaduais e municipais, observa-se a ausência ou a disjunção de instrumentos primários de planejamento, controle, monitoramento e avaliação, sem razão aparente para esta ineficiência histórica.  Esse contumaz vazio contamina, com naturalidade, a gestão, os agentes e as tentativas de avanços, abafando o desejo de alteração da realidade. Uma prática inadvertidamente nacionalizada, que possivelmente facilita os conluios, negociatas e contravenções! Num mesmo efeito cíclico, repetem-se erros e desacertos, consumindo recursos financeiros e humanos. Surgem novas ideias velhas, sem a preocupação com a reedição. E imprime-se uma excelência superficial e incompleta, entre práticas, modelos e metodologias de mercado, que carecem da seriedade para serem conduzidas adiante.      Por fim, o marketing é escalado para fantasiar e colorir resultados semiacabados, na maioria das promessas, ditas ideológicas. E, apenas ao término do ciclo de quatro anos, na iminente e preocupante avaliação eleitoral, minimiza-se o confronto dos feitos políticos, sugerindo um processo de trocas, onde o clientelismo eleitoral, os candidatos, os agentes financiadores e a fome imediatista do eleitorado se encontram, creditando novos ciclos ao poder. Nessa forma incomum de agir e gerir deturpa-se toda uma cadeia produtiva – pessoas, cultura, herança e processos.

Neste confuso cenário excetua-se apenas o órgão de controle externo – os tribunais de contas, na medida em que exercitam solitariamente o desejo constitucional de ver fortalecido o mecanismo do “Estado Brasileiro”, à luz do trabalho de caráter preventivo e orientativo sobre normas, práticas e metodologias internacionais. Mas, considerando algo em torno de 5.500 entes municipais e 27 entes estaduais, distribuídos em 03 poderes, nos diversos níveis de estruturas deficitárias, há de convir uma insipiente ação de auditoria para o universo em apreço. Suscita-se, por consequência, um desdobramento: em função da paralisia e da ferrugem que acometem as administrações públicas, os tribunais estão implantando sistemas de informações próprios, alcançando mais rapidamente as esferas públicas, no intuito de ampliar a responsabilização em tempo real e a plena eficácia da gestão. Com essa intenção, verifica-se uma perda gradativa de autonomia dos controlados e uma forte tendência para a extensão de domínio do controle eletrônico, alcançando variados segmentos do ambiente público.

Mas, enquanto a saúde corporativa está intrinsecamente vinculada à saúde mental, ambas permitem aflorar furtivamente enfermidades, que estarão destruindo lentamente as estruturas – individuais e coletivas. E se, por um lado, o assédio, nas suas diversas formas (moral, sexual, processual, psicológico), as negligências e os descasos (na configuração do desrespeito ao ser humano, ao profissional, suas experiências e habilidades e na aplicação injusta das regras) acometem, criando malefícios, indistintamente, sobre qualquer organização, outros fantasmas incomuns percorrem, exclusivamente, os corredores públicos.  O que dizer das intenções nas políticas de RH, mal elaboradas, não definindo aplicações em quantitativos, carreiras e  trilhas, desalinhadas dos processos? O que falar dos regramentos impostos sobre alguns, se há uma nítida ausência de regras para outros?   O que dizer dos descontentamentos proporcionados pela ausência de critérios ou pelo desprestígio da produtividade e dos méritos?  Como tratar a obediência servil, enraizada pelo clientelismo, que pratica normalmente a injustiça, que exercita a deslealdade e rebate ou ofusca a meritocracia? Como combater as frustrações e a infelicidade generalizada, num ambiente depressivo, onde há licença indireta para matar as expectativas? E por fim, o que dizer das doenças corporativas, acentuadas pela miopia e pela inércia?

Eis que, mesmo assim, em vista do desarmonioso e tedioso ambiente doentio que possivelmente podem se transformar às instituições, ainda floresce o capital intelectual, o conhecimento e os talentos, forjados possivelmente sobre outras óticas. Prováveis combatentes que afrontam  e não se deixam induzir pelas degenerações e decadências, que colhem parcerias para a manutenção da mesmice funcional. Porém, tantos outros, declinam, abatidos durante a trajetória ou abandonando as trincheiras, descrentes e pressionados pelas lesões e cicatrizes.

Crônica social: Alice no país das maravilhas e o primitivismo social e político

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por Fernando Cássio, em março de 2015

Dicotomia e dualismo perseguem a realidade na medida em que as fantasias ocupam o mesmo palco, provocando visões distorcidas sobre posturas e cegueira sobre fundamentos filosóficos.  Preocupações massivas que atingem as fronteiras do universo. Se, sob a égide dos investimentos, pratica-se a criatividade humana aliada ao desenvolvimento tecnológico intensificando investigações científicas na busca existencial em outros planetas, simultaneamente, pratica-se investigações criminais  na tentativa de prospectar, aqui mesmo na terra, a dádiva das fortunas decorrentes de condutas criminosas que geraram vultosos investimentos financeiros em paraísos fiscais, aflorando e prosperando ilicitudes germinadas em solo brasileiro, condensando um questionamento cotidiano: “o crime é normal e compensa?”.

A dualidade persiste, enquanto milhares de pessoas ainda não acreditam que o homem pairou sobre a Lua, assim como não acreditam que não há qualquer ato de violação  e indício de desvirtuamento de conduta,  imprudência, negligência e imperícia, acometida e associada, como agravante, no exercício comunitário do poder central do país. Estranhamente, que país é este! Urge, adiante, uma sagaz dúvida: foi roubo ou furto? Ainda assim, recai sobre a justiça dos homens a cruel missão de estabelecer as provas e desfazer os descaminhos tortuosos, enquanto se multiplicam afirmações negativas em semblantes cínicos, representativos de contraventores, num propenso descaramento nacional.  E a dualidade não para por aí! O poder de polícia também se confunde com o poder da contravenção, na medida em que ambos ocupam o mesmo espaço territorial, alternando interesses partidários com interesses de Estado, lesionando e contaminando, inclusive, agentes públicos de carreira, na feição de atos de prevaricação ou na ausência de instrumentos para o combate. Em sintonia, há notadamente um esforço no sentido de ludibriar a população, desordenada e  já atônita, usando o marketing positivista, incutindo boas notícias e boas ações sociais, entre feitos inacabados e ações minimizantes, enquanto os lastros e a paciência vão sendo consumidos gradativamente.

Bem próximo dali, as falas e os contorcionismos praticados pela classe política também mantém um dualismo existencial: todos praticam o fisiologismo, no desvirtuoso emaranhado onde atuam, entre doações de campanhas eleitorais, dívidas e dúvidas morais e práticas para satisfazer conveniências, antecipadas em empréstimos e acordos sem anuência pública, corroídos pelo próprio ambiente e pelo sistema imposto, sem que haja espaço para o contraditório e a reengenharia.

Afinal, em qual mundo nos enquadramos? No conto de fadas passageiro criado pelos governos, acentuado nas diversas páginas que envergonham a ética e as virtudes e reforçam a urgente evolução, ou na realidade cruel das esquinas, nas teias que matam diariamente desavisados e desatentos?

Ao contemplar a prática deste jogo duplo, retornamos à essência e à natureza humana. Exacerbam-se as aspirações por necessidades básicas de subsistência, essenciais à vida, alcançando a segurança mesquinha e o poder solitário. Em milhões de anos, ainda mantemos os mesmos instintos primitivos, com pouca evolução. Para Platão, Max, Freud até Sartre, a natureza humana busca somente a essencialidade e alimentação da alma, nas relações com outros da mesma espécie.  Porém, para a Polícia Federal –  PF, o MPF e o STF subsistem outros valores. Entre ausências e pré-falências, mantemos o funcionamento sofrível com a dominação da violência de toda ordem e grandeza. Aquela que congela e impossibilita o descolamento da nossa própria origem.  Um país democraticamente jovem, com a alma e a herança de costumes de uma velha senhora (corrupção), que insiste no engessamento dos sonhos e dias melhores, disfarçando a vida nas ilusões diárias.

Crônica social: Quem está blefando?

blefeMJpor Fernando Cássio, em dezembro de 2014

Poderia ser inofensivo ser não fosse trágico! Talvez, apenas uma lamentável conjunção aos olhos de quem está fora do país ou fora de órbita. Um vultoso desastre sem proporções calculáveis para as gerações em formação. Esta é a conclusão que antecipo sobre o Brasil. Entre fatos e atos praticados em nome do interesse particular de grupos passageiros – inquilinos do poder, e de tantos outros que almejam igual destino e espaço, somos colocados à prova e obrigados a conviver com um cotidiano incerto, cercado de falsas verdades, ilusionismo e desvios morais, impondo uma tendenciosa e insensata deformação social. Mas, que tendência seria esta? A propriedade da tolerância à corrupção e ao descaminho, absorvendo os consequentes danos. Uma porta entreaberta para a perversão produzida em várias matizes. Uma aceitabilidade coletiva quanto à normalidade do erro e a transgressão da moral, na intensidade que vier. Na mais recente operação contra o crime organizado, novamente surgem vários integrantes do atual partido político no governo, envoltos como autores e coautores no desvio estimado em mais de 10 bilhões de reais, cerca de 4,2 bilhões de dólares. Porém, este número ainda parece ser insuficiente para causar frisson ou movimentação social. Estamos acatando fatos dessa natureza como sendo convencionais e normais. Quem sabe o excesso diário nos telejornais tenha neutralizado o espanto. Ou esperamos pelo pior! Mas o que poderia ser pior? A sociedade está pasma ou complacente? Quem sabe! Se não bastasse, o país vive uma guerra, não declarada ou constituída, atravessado por balas perdidas, consumo e movimentação de drogas e assassinatos urbanos, sem investigações conclusivas e sem um confronto e uma ação política de cunho nacional. Do outro lado, uma generalização da corrupção em vários níveis e alcances, com ilicitudes e desvios incontáveis de recursos públicos, massivamente expostos. Neste infernal cenário lamentavelmente todos nós, indistintamente, vamos sendo arrastados, ancorados pela falta de selo e pela prática da ilusão nacionalizada, sem que haja uma zona de conforto, pois a qualquer momento, em qualquer lugar, alguém estará à mercê da banalização e da agressão e das consequências danosas, ratificada no radar  da incompetência, da violência e da ineficiência.

Nesta caricatura de sociedade, os partidos políticos ampliam seu poder de transformação destrutivo, ocupando, transformando e criando dependência para o Estado, atuando em duas movimentações síncronas. Enquanto de um lado, uma mão disfarçada de senso público tenta propagar avanços sociais, maquiando percentuais e números para caracterizar avanços, a outra mão, ao mesmo tempo, consagra o pensamento mesquinho e oportunista, subvertendo descaradamente os valores e o resto das qualidades de um povo,   surrupiando direitos e construindo vantagens para alguns. Políticos e suas ideologias sem consistência, ocupam a geografia das nossas vidas, misturando conceitos de “Estado” e de “Governo”, tentando alterar e ludibriar estruturas sociais, conceitos e a própria história, sem que apresentem qualidade e credibilidade para tal. Gente que se arvora do direito democrático do voto, manchando procurações assinadas em branco,muitas vezes com o próprio sangue do eleitor,  inclusive com a anuência dos demais poderes constituídos. Mas, afinal, quem estaria blefando?

Acho que todos nós! Eu, você e todos que compõem esta sociedade e uma nação sem sustentação histórica do caráter. Sem uma formação baseada em lutas que, notoriamente, provocariam uma faxina e uma melhor qualificação do DNA da nossa formação. Não somos alicerçados pelas conquistas empunhadas nas espadas de verdadeiros heróis nacionais, que deixaram suas vidas nos campos de batalhas à serviço da coletividade. Nunca tivemos gente assim! Entretanto, entre leis e criminalizações brandas, o desfecho do nosso ideário é a caos moral, a fadiga das instituições, a adulteração da linha imaginária da conduta, a falta de retidão, a lentidão ou ausência de processos de reforma moral, a cleptocracia, a desordem e a ampliação generalizada, gradativa e permanente das transgressões, produzidas em diversos ângulos sociais e por agentes de todas as classes e representações, em função de uma só métrica institucionalizada e justificável – a impunidade e a desconfiguração da ética. Sem ética, instala-se a forma mais decadente de disfarçar a falta de senso coletivo e a irmandade. E estamos diante deste cenário. Paira uma insegurança e uma incapacidade, sem energia para um novo direcionamento nacional, onde talvez, poucos enxergam esta problemática. Assim, há de se esperar uma catarse, sem prazo e sem a chave da sua ignição! Mas, até onde erramos? Não percebemos a corrosão dos limites ou aprovamos o desvio proposital na delimitação das regras sociais? O certo é que vivemos tempos de excesso – de corrupção, injustiça, ilegalidade, e acima de tudo, indulgência. Uma tolerância e uma hesitação que ativa a falência ou a falta de ética. Que descaracteriza os valores e virtudes. Que reduz a liberdade, a paz, a justiça e o próprio sistema e identidade moral de uma nação. Nos tornamos um aglomerado irracional de indivíduos em luta por interesses particulares. Perfeitos fratricidas. Sem ética não há coesão moral e social. Não há caminho seguro. E talvez, nem haja caminho. Não coexiste uma Nação. Afinal, quem está blefando?

Crônica social: Academia de Letras ou Academia de Músculos?

ccpor Fernando Cássio, em novembro de 2014

Quem cuida da mente, deve cuidar do corpo! Este era o ditado desenhado num grande letreiro, sempre bem mantido, que ficava diante do pátio de formatura do Colégio Militar do Recife, situado na rua Benfica. Foi a forma de fixar tal importância na formação dos jovens daquela época. Muito antes de surgir as academias, como centros de estética e apelo comercial, apenas os militares, esportistas profissionais e fisiculturistas resguardavam tal empenho. Porém, em Recife, o lendário Carmelo de Castro (http://carmeloperfil.blogspot.com.br), que em 1969 já despontava no 1º Campeonato Brasileiro de Musculação, antecipava uma nova onda de modismo e saúde. Em 2014, o  Brasil já é o segundo colocado em número de academias, perdendo apenas para os EUA. Em 2012 foram contabilizadas 22 mil unidades e 6,7 milhões de adeptos. São Paulo e o Distrito Federal aparecem como campeões nacionais em quantidade de academias e uso de academias por habitantes, respectivamente. Volumes crescentes exponencialmente, transformando investimentos anabolizados com alta lucratividade. As academias, antes simplórias e acanhadas,  estão evoluindo para grandes e espaçosos centros de estética, beleza e práticas de esportes, como alternativa também para a falta de espaços públicos e a falta de segurança. Mas, não é só isto. Estes ambientes, cheios de recursos e criatividade para exercitar grupos musculares, como gaiolas de hamster, também impulsionam outro importante movimento – a sociabilização. Gente ligada em rede, a partir do cuidado com o corpo, que por consequência, passam a manter relações informais, comerciais, de negócios, de amizades, inclusive pré- acasalamentos e novos ajuntamentos. Nessa minha maratona de assíduo praticante, de 06 dias por semana, além de deixar muito suor e desenvolver uma intensa energia física, também exercito a arte da observação do cotidiano, que passo a dividir somente com você, a partir de agora.

Basicamente 03 públicos distintos e instigantes comparecem a estes ambientes, cheio de luz dançante, refrigeração e um volume musical só comparado as boates e danceterias: (i) os viciados, que passam horas entre espelhos e pesos, procurando uma melhor ângulo e uma silhueta nunca satisfatória, adeptos das formulas mágicas para crescer aqui e acolá, entre esforços e tensões; (ii) os fieis, que comparecem e atendem aos propósitos estabelecidos nas cartelas indicativas de séries e movimentos repetitivos, mesmo não participando ativamente da maratona de produtos e exercícios simultaneamente, mas que ainda assim, realizam o chamamento das dores, como seu parceiro diário, aguardando ansiosamente o desabrochar dos músculos, sem esteroides; e finalmente, (iii) os ateus, incrédulos contaminados pelo desanimo e pela empatia, que se colocam em xeque diante dessa movimentação e pressão, mas que utilizam, de forma moderada, os aparelhos e mais ainda os inseparáveis celulares, exercitando a liberação das cordas vocais, entre prolongadas conversas que garante a consciência do dever cumprido. Fora estes grupos, há também os casos excepcionais. São àqueles que se destacam da multidão, entre qualidades e esquisitices. São comumente detectados pela roupagem, pelo conjunto físico, pelo carisma, pela nível de perturbação, com posturas próprias e atuantes. Ao visitar um centro de treinamento, sempre haverá alguém com um fone de ouvido exageradamente maior que os demais, uma fantasia em forma de plumagem ou pele de onça, uma combinação desencontrada de cores e padronagens, uma apresentação de malabarismo, contorcionismo ou acrobacia, inclusive no solo e aérea, gente bufando, gigantescas criaturas ou raquíticos, além de gente com uma alegria incomum. Gente que a gente se pergunta: de onde saíram? Bem, pelo menos, tenho uma certeza: ainda não vi ninguém com cacoetes. Pode ser um bom sinal que representa a qualidade dos praticantes. Doidos camuflados, como acontece na vida e em qualquer lugar. Mas, acima de qualquer brincadeira e humor, vejo uma capacidade incomensurável de força de vontade e dedicação. Horas à fio em busca de ultrapassar desafios próprios e limites solitários. Um somatório de energias em nome de algo maior – a qualidade do corpo. Um ambiente que respira uma áurea de conquistas particulares, que é buscado em muitas empresas públicas e privadas, sem sucesso. Não existe nenhum outro alugar com tanta empolgação, energia e foco. Se pudéssemos empacotar ou concentrar em forma de elixir, a venda seria um sucesso e para vários males.

Antes de qualquer coisa, o iniciante que deseja perseverar, deve tomar uma única e precisa decisão – mudar e investir em novas atitudes. Drasticamente e rapidamente. Mudar, principalmente, hábitos! Malhar exige dedicação, concentração, regularidade, introspecção e paciência. Não adianta apenas comparecer e fingir, para si, que atende aos mandamentos descritos. Sem isto, os recursos financeiros investidos serão enterrados, assim como os resultados em forma de músculos e condicionamento. Exigir de você será uma prática diária! Salutar! Ultrapassar limites será uma busca. Somente assim o formato do seu corpo ganhará nova simetria e estrutura. Alias, não podemos esquecer que o visual é sugestivo aos olhos. Existe um padrão comercial incutido nas mentes. O corpo sarado é sinônimo de saúde, beleza e os atributos se misturam, compondo outros argumentos sociais. Entre o amanhecer e o entardecer, os centros de musculação te aguardam e mantém um público cativante, de variadas faixas etárias, com uma variedade de categorias de profissionais, misturados e dispostos a melhorar a condição física, para então melhorar a mente. Melhorar os resultados para obter mais fôlego e poder correr atrás dos resultados financeiros e da própria vida, de forma mais saudável e adaptativa. A moda pegou!   Parece que não há saída, nem retorno. Exercitar a mente pressupõe exercitar o corpo, assim como o inverso. Então, vamos turbinar os neurônios com proteínas de informações e “marombar’ o cérebro com bom senso e racionalidade, enquanto o organismo ganha massa muscular para seguir adiante, equilibrando o caminho físico e espiritual.

Crônica social: O ano da derrubada jurídica que derrubou o país

justicapor Fernando Cássio, em outubro de 2014

As manchetes nos jornais do dia 27 de fevereiro de 2014 anunciavam: “STF derruba a configuração do crime de formação de quadrilha envolvendo o PT”. A complacência jurídica e social nos levou a ter esta situação: de um lado, um partido, o PT, novamente envolvido em denúncias, investigações e constatações múltiplas de corrupção, roubo e desvios, inclusive com dois excelentes exemplares da mais perfeita etnia dos contraventores – um doleiro responsável pela lavagem de dinheiro público conseguido de forma ilícita e um ex-diretor da Petrobras, que resolveu devolver mais de R$ 52 milhões desviados e entregar várias armações financeiras em nome de políticos do PT, PMDB e PP, além de farta lista de autoridades envolvidas. Do outro lado, parcela da população atônita, que nem imagina, nem alcança tal espetacular ação do crime organizado, com atuação na mais perfeita orquestração de um bando, atuando dentro do próprio governo, superando inclusive a forma de atuação da famosa máfia italiana.

Esta conjuntura, digna de livro policial ou ficção, depreende as seguintes consequências sociais: no primeiro momento, há um descrédito e uma desconfiança generalizada, enquadrando todas as autoridades, políticos e as representações num mesmo vazio, sem sustentação. Mais adiante, a situação provoca uma reação em cadeia, com a prática da justiça com as próprias mãos, o desleixo pelas regras sociais, regras de convivência pacífica e coletividade, além de uma intensa procura pela lei da vantagem. Em seguida, a destruição se petrifica, através dos desmandos em série, das autoridades paralelas ocupando áreas que seriam de domínio do Estado, inclusive com a ampliação da violência em várias escalas, em ambientes nunca imaginados. Não havendo reação social suficiente para reverter a desordem instalada, surgem aí outras formas de dominação e pressão social. Sem perder o contexto, a vida brasileira segue seu destino, trilhando coletivamente este exercício sombrio. Os políticos, por sua vez, tratam de abafar as manifestações e movimentações sociais e se mantêm na mesma posição ególatra, usufruindo das benesses de grupos financeiros, sem atentar para o desequilíbrio à galope.

Diante de tanta insensatez, alguns, observadores do cotidiano, propõem uma marcha, uma onda, um novo ordenamento moral, como única saída para este caos geral e iminente, que se fortalece, de forma crescente e gradual,  nos costumes e nos desvios de conduta, individual e coletivo, em todos os cantos do país. Quem teria, afinal, legitimidade para proporcionar mudanças e redirecionar o país? Na hora de reverter este quadro insano, todos os institutos democráticos já haviam ruído, levando consigo os estadistas, agora esquecidos nas paredes e nas frases de efeito. Neste cenário grotesco, permaneceram apenas os fanáticos e os inocentes, entupidos de informações com alto grau de desconfiança. Ambos, sem senso crítico ou visão com acuidade apurada, apenas passaram a integrar, como coadjuvantes, o cenário já bastante consumido e debilitado pelos exploradores de toda a sorte. E aí, ao voltarmos ao passado, verificaremos que ninguém errou em excesso, mas o exercício diário da falta de zelo pelos princípios, marcado a partir daquele dia 27 de fevereiro, ecoou bravamente pelos anos que se seguiram, até alcançar um Brasil semi-falido moralmente ……..

Crônica social: A lama que insiste em sujar o tapete e as almas

footprints-284708_640por Fernando Cássio, em setembro de 2014

Esta não deveria ser a prática no nosso país, nem tão pouco a preocupação social. Que tal imaginar um governo “sem sujeira”, com a qualidade do detergente ou do sabão em pó, em lugar do vínculo à imagem do caranguejo ou guaiamum, quase em extinção na natureza, porém que acrescenta ativa relação e multiplica-se na vida política brasileira, em função do gosto pela lama e pelo manguezal. Uma espécie que sobrevive integrada aos alagados em diversas regiões. Porém, a natureza é pródiga! Ao mesmo tempo, projeta-se nos brasileiros um sentimento, uma carência e uma dúvida quanto a qualidade e a desconfiança em torno de tudo que se concretiza ou projeta-se no país, pelas mãos dos políticos e servidores. O Brasil democrático e a nação sadia precisa exercitar os pressupostos de um jornalismo livre e investigativo e exorcizar o alto nível de corrupção em intensidade, escala e ramificação que encontra-se instalada. Basta de gente que se alimenta do poder para, de forma mágica, se tornar, individualmente ou coletivamente, poderoso. Basta de gente que pouco faz e muito ganha. Ou gente que acumula riqueza aparente em curto espaço de atuação. Os mais antigos diziam que àqueles que derivam do serviço público praticam uma missão nobre, quase religiosa. Nunca seriam ricos, nem fariam jus à ostentação. Não é o que está acontecendo no Brasil! Esse truque, de absorver ganhos e patrimônios em curtíssimo prazo somente é alcançado e decifrado pelo Mister M, projetado na imagem de competentes jornalistas, quando posteriormente os casos chegam à Polícia Federal e a Controladoria Geral da União, revelando a criatividade danosa. Por sinal, quem já viu gato correndo atrás do rabo, sabe que esse tipo de exercício, da auto entrega, é fantasioso, com uma cumplicidade que só ao rabo e ao gato convém! A sociedade, porém, almeja uma máquina pública mais ágil. Que não atrapalhe. Mais resoluta e rápida. Só isto! Precisamos de servidores, entre gestores e políticos, mais altruístas e estadistas. Temos um cruel problema em potencial no Brasil neste momento: péssimos exemplos diários estão sendo produzidos por gente que representa e utiliza-se do poder, em todas as instâncias. Gente que deveria limitar-se a produzir perspectivas e mudanças sem sujar e contaminar a sociedade. Gente e grupos partidários que deveriam ter habilidades e princípios para governar, sem necessariamente produzir eventos semanais, impulsionando as páginas policiais como manchetes. Provocando o enriquecimento ilícito, particular e de grupos, acima de qualquer ação cidadã. Como um show de horrores, marcando negativamente a formação da sociedade. Generalizando o conceito de que o roubo é parte da nossa essência ou da nossa necessidade ou que é comum na vida da nossa sociedade.

O Brasil necessita de uma nova conformidade para a o exercício político e administrativo. Anular os financiamentos privados de campanha para reduzir os créditos e as intenções de uso do dinheiro governamental. Reduzir o uso indiscriminado do poder sobre a estrutura da máquina pública, transformando os cargos comissionados (de apadrinhamentos) em cargos exclusivamente de carreira, com políticas de RH e diretrizes claras de progressão. Sem isso, vamos transformando servidores em ocupantes oportunistas, sem qualquer aval de contribuição à transformaçãos. Exigir maior precisão na reforma e no trato do Estado, quanto aos delírios eleitorais que acometem a cada 04 anos as esferas públicas,  provocando descontinuidade de projetos e atividades ou gerando alterações substanciais nas estruturas hierárquicas, sem qualquer análise ou critério colegiada da sociedade e justificativa econômica e de viabilidade e eficiência. Apertar o controle sobre a movimentação financeira e de bens, de pessoas físicas e jurídicas e seu entrelaçamento, em variados níveis de parentesco, seria outra importante medida, para coibir vantagens e ganhos estranhos à normalidade desses envolvidos. Ampliar a extensão das penalidades relacionadas à ficha limpa e suas consequências para parentes de 1º, 2º e 3º graus, inclusive responsabilizando os partidos políticos, ofuscando a possibilidade dos empoeirados indicarem saídas convenientes, mais límpidas e transparentes, porém intrinsecamente relacionadas. Limitar o prazo máximo de 08 anos para o exercício do poder, por partidos e políticos, com suspensão temporária do direito de atuação pública por 04 anos, seria outra forma justa de coibir a formação em quadrilha enraizada, tão presente no presente do país. Tornar obrigatória a transferência das boas práticas para as demais instâncias públicas, quando comprovadamente eficiente, seria outra ação benéfica, obrigando a igualdade e o nivelamento de medidas administrativas e a expansão de experiências comuns, com o avanço das tecnologias em qualquer ambiente público. Quem sabe uma programa nacional, alcançando os três níveis e as três esferas públicas. O pregão eletrônico, por exemplo, nem é obrigatório nos 5.500 municípios brasileiros, que poderia ofertar e reduzir a burocracia e os engavetados processos criados no submundo das comissões de licitações, produzindo transparência e reduzindo os conluios entre fornecedores ávidos e servidores facilitadores.

É salutar informar que a rapidez da ação de burlar é infinitamente superior a ação de coibir! Reduzir o aspecto eleitoral e o carimbo de propriedade na circulação do dinheiro público também facilitaria as ações municipalistas, fortalecendo a cidadania e a formação dos condados, reduzindo o poder sobre a transferência, de forma que a população recebesse àquilo que é de direito, sem atravessadores, propagandistas e oportunistas quanto ao uso dos impostos públicos. E sem essa de padrinho ou boa vontade federal para uma obra ou necessidade municipal! Que tal imaginar a discussão de projetos a partir da participação eletrônica dos cidadãos, retirando de cena a estrutura formal das câmaras de vereadores e assembleias legislativas? Difícil? Nunca! Já temos tecnologia para tudo isto! Afinal, estamos longe da perfeição, mas não estamos longe do mínimo exigido pela sociedade! Assim, entre muitas e outras medidas, estaremos reduzindo e delimitando as oportunidades de manuseio da lama que se espalha nas paredes, piso e pegadas dos políticos e servidores de prontidão. A lama que afoga a administração pública, o povo e o país. Então, para que falar de tapete, se a causa está na falta de assepsia…..

Crônica social: Brasil utópico, procura-se uma nova nação, uma nova gente

multidaopor Fernando Cássio, em 20 de agosto de 2014

As últimas abordagens políticas e as cenas desse Brasil me faz crer que chegamos bem próximos do fundo do poço. Sem pessimismo e com acuidade. Não há como imaginar situação contrária! Acabei de vivenciar a chegada e a cerimônia fúnebre em memória do candidato à presidência Eduardo Campos. Comovente! Eu choro pelo aceno da mudança, provocada e questionada pelo ex-governador, que partiu muito cedo, e choro, em seguida, pelo Brasil!. Não falo em nome da tragédia, mas em nome da conjuntura que se torna trágica e frágil a cada dia. Não é uma tragédia no campo econômico, financeiro ou político. Resume-se ao campo moral. Uma nação corroída. Em 514 anos de existência do Brasil, somos assim! Vejo as mesmas práticas que caracterizam uma cultura provinciana, calcada na busca pela ocupação do poder. Pelo prazer do deleite e das vantagens que o poder proporciona. Ainda pior é imaginar a distância entre discursos e atos. Enriquecidas de expressões, as falas são facilmente ludibriadas pelo contorcionismo exigido logo após a dominação dos cargos de relevância pública e eleitoral. Na prática, os discursos se dissipam! E a parte cruel ainda é outra. Sucessões de acontecimentos expostos e obscuros, trazidos à tona somente pelas investigações jornalísticas, aquecidas pela mídia que financia manchetes! Mas, sem uma determinação coletiva, um prumo e um novo rumo, marchamos para um futuro incerto. Sem qualidade moral. Sem a mínima preocupação com a “ordem” estampada na bandeira nacional! Sem qualidade cívica. Um Brasil confuso em meio às turbulências, mentiras, conluios, desvios, corrupções e atentados. Um Brasil envolto em pesados financiamentos de campanhas eleitorais, que deformam e destroem as futuras diretrizes e possíveis mudanças políticas e sociais. As esperadas inovações que são exigidas pelo próprio país e pelos cidadãos. Uma incongruência tamanha. Visível! Gente apropriando-se do processo de mudança e financiando gente para, mais adiante, usufruir do poder e dele lucrar. Algumas vezes, as misturas são tantas, que não há como diferenciar bandido e mocinho. Assim, vivemos à mercê da falta de nacionalismo e patriotismo. No individualismo e oportunismo. E vivenciamos cenas e enredos na atuação dos ocupantes de funções públicas, com o exclusivo interesse do olhar umbilical, ou pior ainda, explorando, quando possível, o capital, o dinheiro alheio e público, ou registrando fartos exemplos negativos no cenário urbano, subjugando, direta ou indiretamente, as instituições, as normas e os cidadãos. Fortalecendo o terrível lema: “neste país o crime compensa”. Em vários níveis e amplitude das infrações!

Mas, servir ao poder é diferente de usá-lo. E deveria ser este o sentimento elementar. A capacidade, o desprendimento e a coragem para provocar uma nova feição. Uma abnegação e altruísmo presente no espírito. Diagnosticada no sangue de quem pratica a política partidária e de quem pratica cargos e funções públicas. Um componente do DNA que teria a missão de desligar os desejos subjetivos em prol do senso de coletividade, fornecendo musculatura e energia às ações e causas requeridas pela nação e seu povo. E quem sabe, o composto ainda serviria como antídoto para a degeneração moral que assola cada canto desse país. Mas o desprendimento e este sentimento também deveria percorrer toda a sociedade. Porque o processo de mudança requer sintonia com as ruas. Nas ações do cotidiano. Na cabeça de cada brasileiro. Na correição dos seus próprios vícios e erros diários. E como uma onda, impulsionando à todos para uma nova conduta. Mas alguém poderia dizer que evoluímos. Claro que sim! Estamos obrigatoriamente andando, maquiando a fachada, em meio ao oco e ao vazio no campo moral. Aquilo que sustentaria uma sociedade sadia e uma nação baseada em princípios. A ética instalada na forma de agir e pensar de cada brasileiro. A conduta individual, ao arremessar um simples papel nas ruas, colabora para a deformação crescente. E reafirma, na banalidade praticada, que também contribuímos com o afrouxamento da cidadania e do devido papel que cabe a cada um de nós neste cenário e processo. O descumprimento básico dessas pequenas obrigações sociais nos conduz a tantos outros afrouxamentos jurídicos e sociais. E nesse jeitinho brasileiro, multiplicamos a prática cotidiana, com atos e extravagancias que pouco a pouco passam a ser aceitáveis e palatáveis. Comuns aos olhares desatentos!

Um país que não vivencia guerras mas que se permite sacrificar heróis anônimos, empurrando seu próprio povo ao descaso diário, nos conflitos entre classes e entre estágios de sobrevivência e deformidades de condutas, nas violências que se apresentam em qualquer esquina, destacando incompetências e negligências, públicas e privadas. Com a tecnologia, conseguimos acompanhar as ilicitudes quase em tempo real. Sem disfarces e ainda no calor dos acontecimentos. Por sinal, nem há mais interesse em disfarçar nada! O conluio de teor maléfico e os esquemas de ilegalidade estão às claras. O erro já nasce absolvido, compondo atos e fatos comuns, dada a multiplicidade e espalhamento. Ainda assim, tem gente se glorificando, declarando aos quatro cantos que nunca, na história desse país, houve tanta dedicação da polícia federal. Claro e evidente! Na lógica policial não haveria de existir trabalho e cadeia se não existisse malfeitores, ou vice-versa. Ao mesmo tempo, a sociedade também observa atentamente o distanciamento e o desencontro entre investigações e denúncias jornalísticas, ações policiais e o desempenho judicial. Nas entrelinhas e vírgulas das normas jurídicas, as hipóteses declaram novas ordens ao ordenamento já fragilizado. Recentemente, o núcleo do poder executivo federal foi “quase” qualificado como uma quadrilha, pelo Supremo Tribunal Federal – o mais elevado nível da magistratura. O que, em outros países, seria motivo suficiente para o desprestígio partidário e o pleno descrédito dos envolvidos, com a suspensão definitiva da participação social, aqui o fato se acomoda nos truques jurídicos, com a antecipação das penalidades aplicadas aos criminosos, solidificando a razão absoluta do crime sobre a ordem. Enquanto isto, os apenados e seus seguidores tratam de desqualificar quem porventura acenou em nome da verdade, exercitando o dualismo filosófico, entre o bem e o mal, com ampla vantagem aos contraventores e suas duvidosas façanhas. Enfraquecendo os instrumentos de coerção social, vamos enfraquecendo a sociedade e as virtudes. E se ainda é pouco, a subversão dos valores alcança e atinge em cheio a juventude, onde as evidências sugerem um futuro baseado apenas na ambição e na ganância, assim como a lucratividade dos ilícitos propiciou sucesso aos incautos. Naturalmente, os brasileiros humildes que se deslocam diariamente ao trabalho, que madrugam e se acotovelam diante do precário serviço público, levam adiante dias de esperança, achando que seus esforços não serão em vão ou que, de alguma forma, haverá alguma solução mágica. Um salvador. E não haverá! Não há ninguém que consiga, neste substrato já contaminado, influenciar e estabelecer um novo ordenamento social e político. Assim, somente acredito que a solução está em cada um de nós. E no somatório dos nossos comportamentos. Precisamos retomar o brilho das virtudes que foi ofuscado pelo desarranjo. A partir de pequenas atitudes. Precisamos, com urgência, recomeçar. Reconstruir! Formatar o pensar e o agir. E precisamos de gente sadia. De gente preocupada com suas ações e reações diante da sociedade e dos semelhantes. De gente formada nas escolas e no seio familiar, com visão e engajamento humanitário. Gente alicerçada para fazer e pensar diferente. Que tem o cacoete de ser perfeccionista! Gente com simplicidade e predisposição para a sinergia e a comunhão de bons propósitos. Gente despreocupada com sobrenomes e sem arrogância. Gente com consciência social e consciência pessoal. Gente que se satisfaz com a felicidade nos rostos alheios. Que enxerga facilidade nas dificuldades, para operar mudanças. Que não se deixa abalar pela influencia do capitalismo sem escrúpulos. Procura-se esse alguém. Essa nova nação. Procure este alguém dentro de você. Candidate-se! E não vamos desistir do Brasil!

Crônica social: Motoqueiros – pernilongos mecânicos do asfalto

Sem títulopor Fernando Cássio, em 10 de agosto de 2014

Diariamente somos forçados a nos deslocar entre estreitos e limitados espaços físicos, na geografia das cidades e lugarejos. Seguimos uma trilha que estabelece a mesmice da vida urbana. Sempre foi e acho sempre será assim. Não imagino mudança ou resolução nos próximos minutos. Uma briga de gato e rato, que envolve, de um lado, indústrias automotivas, ávidos por consumidores, responsáveis em despejar anualmente cerca de 3,4 milhões de veículos e 1,5 milhões de motocicletas no Brasil, no tão vasto e limitado território, e do outro lado, os vários níveis de governo, com a obrigação de garantir a qualidade da infraestrutura rodoviária, na manutenção das vias já existentes e na construção de novas alternativas viárias. Aqui em Recife, por exemplo, a prefeitura resolveu adquirir um grande   lote de tinta amarela. E possivelmente fizeram um campeonato, premiando quem mais pintasse os meios-fios. Não deu outra! Para quem não sabe, a tinta amarela determina que não há possibilidade de estacionamento naquele local. Assim, toda margem de calçada foi esmaltada nessa cor cintilante. Bravo! Bravíssimo! Mas, onde vamos colocar, agora, os nossos benditos carros?! E como vamos usufruir da cidade? Nessa confusão cotidiana, entre pessoas com intuitos e destinos diversos, possantes e múltiplas cilindradas em espaços afunilados, pressa e estressantes condições, poluição, buracos gigantescos enquadrados como simplórias imperfeições e uma péssima qualidade do transporte público, além do ilusionismo governamental, seguimos adotando a mobilidade como um devaneio coletivo. Permita-me uma ressalva: como é vergonhoso verificar a paralisia dos governos ao não enxergarem a condição feminina num vagão de metro. Se não existe competência para ampliar o número de vagões, então defina uma política mínima, separando espaços entre homens e mulheres. Simplesmente assim!  E salve-se quem puder! Antigamente, as pessoas tinham outro ideal de futuro. Sonhavam em crescer, multiplicar e adquirir o seu imóvel. Agora, a sociedade adotou novos sonhos. A consciência alterou o objeto de desejo, que foi alterado pelo consumismo, provocado pelo modismo, que estabeleceu uma nova ordem social. Ufa! Nada de casamento. Nada de imóvel. Nada de limitação. O ser humano aprendeu a querer circular e transitar cada vez mais longe, descobrindo novas terras, como faziam os navegadores. E tudo passou a ficar mais longe também. A expressão “logo ali”, era caracterizada como medida de beiço e a expressão do extremo mais remoto, que a visão alcançava. Coisa de mineiro! Tudo acontecia nas cercanias. A vida se limitava às esquinas e quadras. Visitar um outro bairro seria como viajar para um outro país. Vivíamos concentrados. Próximos uns dos outros. Essa história de longas horas dedicadas à espera da condução e outras tantas para o percurso, degustando engarrafamentos, é atributo da modernidade e da desarrumação trazida à reboque, cujo avanço e consequências mesclam um grande doideira – tem gente demais e espaço de menos! Que venha Marte! O sentimento que fica é o seguinte: parece que houve uma superlotação de vontades idênticas. Numa mesma hora, num mesmo desejo, milhões de pessoas se dirigem para um mesmo ponto geográfico, com um mesma vontade de chegar. E pior, ninguém chega!

Mas, ao inventarem a distância, inventaram a forma de circular com menor esforço. Criaram a roda e o seu encaixe entre eixos, com um assento em lona. Assim se fez em 1885 a chamada motocicleta. O quase hipomorfo foi uma invenção que teve como objetivo garantir a transmutação do indivíduo, sem muito suor e desgaste. Uma inventividade que carregou consigo o incentivo à poluição, ao individualismo, ao elitismo, mas ao conforto. Logo em seguida, em 1886, apareceu o primeiro protótipo do carro, com o mesmo fim. Mas, a  imagem do cavaleiro e seu alazão foi substituída pelo motoqueiro e sua moto. Findou-se um ciclo e iniciamos um nova etapa. As aventuras empoeiradas no trote do cavalo deu lugar a possantes máquinas de duas rodas com efeito sonoro próximo ao rugido dos tigres. A auto locomoção passou a proporcionar também a autopromoção e o ganha pão de muitos. A moto foi personificada. Surgiu o “motoboy”. Uma espécie de carteiro com motor. Um faz tudo motorizado. Um pau pra toda obra. Disponível para fazer qualquer coisa, desde que se pague pelo serviço de entrega. A moto passou a ter outras serventias. Do cachorro da madame, a entrega de documentos e pizzas, entre outras quinquilharias, tudo foi possível com este reduzido utilitário. Nos assaltos, perseguições, incursões policiais e, mais recente, a atuação dos bombeiros, tudo deu lugar a essa frenética criação.

Há que diferenciar, porém, motociclista de motoqueiro. Um é classudo, que domina as regras, nos finais de semana, para uma convivência pacífica, enquanto o outro é cotidiano, com agressividade e audácia, sem nenhum receio. A magrela mecânica, acionada no sofrimento do pedal difere do botão elétrico da sofisticação, acordando vários cavalos Quarto de Milha ou Appaloosa. Certamente, a moto e o motoqueiro, diferente do motociclista, compõem a dupla sertaneja, que mais incomoda a vida das outras pessoas. Desconheço outro meio de locomoção que mais chateia, depois dos pés cansados e inchados. Dizem que moto já foi feita pra cair e teimoso é aquele que fica em cima dela! A coisa parada, sozinha, já incomoda a lei da física. Em movimento incomoda a lei do silêncio, a lei do transito e vai além da paciência. Quem ainda não ficou aborrecido ou tenso, ao perceber um desses trambolhos, visualizados pelo retrovisor ou na lateral do carro? Quem nunca sofreu um susto, arranhão, um escorão ou uma leve batida de um guidom? Quem nunca presenciou uma invasão de espaço na calçada, nas faixas de pedestres ou entre carros e no encurtado espaço entre faixas? Quem nunca viu um avanço de sinal, além da ocupação da faixa do pedestres? Quem nunca viu uma moto sendo guiada sem instrumentos de segurança, com excesso de bagagem ou gente? E quem nunca viu um motoqueiro reclamando, acenando que tudo está errado, menos ele! Quem não levou um susto ou foi incomodado pelo ruído estridente de um escapamento brega de uma cinquentinha na madrugada? Uma coisa é certa: civilidade, cidadania e segurança não condiz com estes apaixonados usuários do globo da morte. Personagens dos jogos eletrônicos que tem vida garantida. Gente com 07 vidas! Mas, fica aqui um ponto para reflexão: quem mais incomoda é o pernilongo mecânico do asfalto, caracterizado por uma moto que vai de 50 a 125 cilindradas ou uma Harley-Davidson, de 800 a 2.000 cilindradas, com uma bela loira na garupa? Até onde vai a raiva pela irreverência no trânsito e pela forma descuidada de fazer valer a sua vida e a vida dos outros? E até onde começa a inveja pela emoção de se sentir livre, sem regras, limitações e quase alçando voo? Quem sabe, só após sentirmos o vento no rosto e a emoção no peito, poderemos validar com melhor precisão. Porém, as evidências ofuscam as fantasias. O número elevado de óbitos, em torno de 500 por ano no Brasil e outros tantos feridos e sequelados, com pacientes de alta complexidade, politraumatizados, que ficam internados por longos períodos, aponta para uma cruel batalha. Em São Paulo, por exemplo, morre por dia 01 motociclista. Mas, a sensação de pilotar ativa a alma. E para os “pernilongos mecânicos do asfalto” ainda não há inseticida eficiente que dê jeito. Só emoção e muita adrenalina!

Crônica social: A Copa e a Elite Branca

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por Fernando Cássio, em 06 de julho de 2014

Estamos chegando ao final de mais uma Copa do Mundo FIFA, cujo campeonato mundial entre seleções de futebol alcançou a marca de mais de 200 países ligados na TV e a mais cara entre as últimas 03 copas juntas, no Japão/Coréia, Alemanha e África do Sul. Porém, daqui a pouco teremos um novo campeão. E já é chegada a hora de iniciarmos uma avaliação sobre o evento. Uma análise que poderia alcançar, tão somente, o desempenho dos jogadores e técnicos ou outros cenários associados. Para mim, que não tenho a mínima paciência e domínio sobre o tema futebol, passei a refletir sobre os dribles, lançamentos e estratégias, que simultaneamente aconteceram fora dos 6,5 bilhões gastos nas construções dos campos. Trata-se do capital e das consequências políticas atreladas ao evento. Vivenciamos no Brasil, um momento singular, quando um partido político de esquerda, atua no poder federal por quase 12 anos ininterruptos. Um partido que iniciou um processo de resgate, social e econômico, das classes menos favorecidas, inclusive posicionando o país em melhor condição econômica que o resto do planeta, durante a crise mundial, direcionando a produção nacional para o atendimento das demandas historicamente reprimidas dessa faixa inferior da estratificação social, criando artifícios para o consumo e a manutenção do equilíbrio econômico entre demanda e oferta. Inclusive, criou igualmente artifícios para garantir a dominação política através da dominação social, com programas de conotação semi-escravizantes. Mas, este mesmo partido político também passou a ocupar as manchetes dos jornais, nas páginas policiais, envolto em corrupção, desvio de recursos públicos para a compra de partidos e políticos e desvio de recursos superfaturando operações estatais, culminando com o julgamento e condenação de uma parcela significativa de seus líderes, que ocupava cargos estratégicos na estrutura do governo federal, quase caracterizando a formação de uma quadrilha, reportando um possível e grave envolvimento da imagem presidencial. Para alguns, que vislumbram a moralidade como forma de sustentação de uma sociedade justa, estes fatos seriam suficientes para a devolução da posse do poder, porém, ainda assim, permanecem ocupando cargos públicos nos diversos níveis hierárquicos, inclusive a presidência, enaltecendo a democracia entre investigações e novos fatos policias, que surgem a cada dia.

Com a finalização da Copa, estaremos dando início a mais um sufrágio eleitoral no Brasil. Novas eleições para o cargo de presidente da republica democrática federativa e 26 cargos para governadores dos estados. Será uma corrida em busca da captação de votos e eleitores, com ampla e igual participação de gente inocente, desinformada, despolitizada e outros cheios de ideais e esperança. Será o momento da aclamação de feitos, com efeitos visuais, desejos futuros coletivos com apelos psicológicos e união de partidos e pensamentos desiguais, caracterizando-se deformadas coligações que justificam apenas o momento para a conquista do poder. Então, o oportuno “fuleco” agrega tempero adicional para o importante caldo eleitoral, alçando famintos eleitores, ávidos por desejos e satisfação mínimas e temporais, quase sempre de mente e barriga vazia; eleitores esperançosos com a alternância democrática para a transformação moral e a recuperação cívica do país; eleitores com anorexia eleitoral, descrentes e nulos, bem como, tantos outros que circundam este caldeirão, entre pitadas de verdades e inverdades, ao longo do preparo até o mês de outubro próximo. Ela, a Copa, impulsionou inaugurações! Foram R$ 29,5 bilhões de reais com obras dos estádios e de infraestrutura, sendo mais de 80% com recursos públicos, gerando novas possibilidades financeiras para investimentos nas campanhas eleitorais, antecipando possíveis retornos e desvios contábeis. Empreiteiras e negociações à disposição do esporte sadio. Este é o palco econômico do evento! Ao mesmo tempo, o termômetro que aquecerá as pesquisas eleitorais e as tendências de votos da população, será induzido pelo placar dos jogos. O burburinho de informações e contrainformações receberá uma dosagem adicional, acelerando a mídia, através das empresa de marketing, para proliferar criatividade em prol dos atuais ocupantes do poder e seus opositores. Vencendo a Copa, o país do humor e da inocência receberá adrenalina positiva, embaralhando causas e ofuscando necessidades urbanas e sociais, para o credenciamento e retorno eleitoral de alguns candidatos, além do retorno de investimentos, ocultos e disfarçados. Perdendo, um tsunami de negativação alcançará com extrema energia o país, criando um possível cenário de caça às bruxas e desolação. Tudo será motivo e consequência da derrota, expandindo-se até a contagem de votos. E aí, teremos mais perdedores, além dos jogadores, da comissão técnica de futebol, dos acionistas do poder e investidores. Igualmente terão prejuízos, o Partido dos Trabalhadores – PT, seus seguidores e todos aqueles que se compõem e fazem uso da malha de privilégios, disponível e dedicada ao poder. Será um verdadeiro desmonte!

Mas a Copa também foi dos turistas felizes! Os estrangeiros injetaram R$ 6.000,00 (seis mil reais), em média, na economia, ou US$ 3.000, enquanto que os turistas internos fizeram circular em torno de R$ 1.500,00 ou US$ 700 per capita. Aquele Brasil das metralhadoras circulando em meio ao povão e os assaltos seguidos de morte pouco se viu. Violência também teve ponto facultativo! As malas dos esquartejadores foram momentaneamente substituídas pela frenética circulação de tantas outras, nos aeroportos maquiados e semi acabados. O jornalismo que pontua diariamente a desgraça alheia, em busca da audiência, transferiu suas intenções, focando exclusivamente os jogos e fartas análises. Intensivamente falamos e gesticulamos futebol, com outros povos. Conseguimos ter uma paz encoberta! Bandidos, polícia e povão se comportaram de forma exemplar. Ainda não sabemos o custo das operações militares, mas descobrimos que a segurança pública finalmente conseguiu unir quem nunca havia se juntado. As forças de segurança, entre várias organizações estaduais e federais, partilharam esforços, inclusive com outras nações, integrando sistemas e sistemáticas. Coisa quase impossível de se ver no Brasil! Vivenciamos uma época branda, apenas manchada ou arranhada por quatro excepcionalidades: (1º) a descoberta de uma quadrilha que resolveu capitalizar maior lucro na venda de ingressos, acirrando disputa com o próprio patrocinador, ultrapassando grupos genuinamente nacionais; (2º) a queda de um viaduto e o processo inseguro na construção de outras obras, ceifando vidas, repercutindo na baixa qualidade dos critérios de contratação e suspeição na qualidade das obras públicas já entregues, fortalecendo a metodologia do jeitinho brasileiro de fazer; (3º) a comemoração descabida de alguns desqualificados representantes públicos, que na sua mesquinhez por interesses particulares diante dos interesses do país, tentaram desvalorizar um digno comandante da mais alta corte judicial; e finalmente (4º) um colombiano, intitulando-se jogador, que resolveu trocar a arte do futebol por artes marciais, transformando um golpe mortal em olé, destruindo nossa esperança e expulsando, definitivamente, de campo, o nosso maior exemplo de herói nacional, até a próxima copa.

Talvez, o lucro tenha sido o maior vencedor desta Copa! Ele correu solto por todos os campos, sem sofrer qualquer impedimento. Induziu a economia nacional, bem antes do primeiro apito sonoro de início das partidas. Envolto na magia de ganhos e passes ardilosos, já a partir de 2011, impôs um custo pelo sucesso do evento, adicionado uma carga aos preços, num país que já sofria com impostos, sem retorno visíveis em serviços públicos com qualidade. Criou no entretenimento, um oportunismo econômico, gerando vínculos que acionaram o capitalismo na sua melhor essência. Superfaturou custos em todos os segmentos, chancelando um padrão FIFA, acima da razão, da lógica e da ética da economia nacional. Mas criou um ritmo acelerado no consumo, que deixará saudades, inclusive para os comerciantes informais. Foram consumidas, na Arena Pernambuco, por exemplo, cerca de 7.000 tapiocas durante os três primeiros jogos realizados. Uma média de 2.400 unidades por jogo. Um número simplório, se considerarmos outros tantos ganhos, mas digno de garantir o sorriso incomum para quem, possivelmente não participará novamente de outro evento dessa dimensão, apostando apenas na culinária nordestina, antes de qualquer time, país ou jogador. Com tanto sucesso e tantas outras conquistas atreladas ao evento, mesmo assim, fica a minha dúvida sobre uma velha expressão que volta à tona, particularmente sendo utilizada pelo desgastado Partido dos Trabalhadores, nominada de “elite branca da Copa”. Afinal, quem é essa elite? Quem compõe esta elite branca? Serão aqueles que conseguiram lucrar com o evento, de forma duvidosa, inclusive eleitoralmente? Serão aqueles que permanecem no poder, transfigurados de proletariados, induzindo a população a acreditar que exercitam o poder de forma sacerdotal e inocente, tirando dos ricos para dar aos pobres? Ou serão aqueles outros, filhos do poder, que enriqueceram rapidamente, em função dos cargos e negociatas que realizam, inclusive dedicando espaço e oportunidade familiar para tal? Bem, nessa nação brasileira onde todos nós somos derivados da mistura sanguínea de variados povos e culturas emigrantes, sem clara evidência de uma única cor ou raça, projeta-se uma multiplicidade visível, com etnias que convivem plenamente entre si, sem qualquer limitação geográfica ou religiosa. Mas, vivemos a espera dos resultados do jogo do poder e da melhoria na qualidade do DNA, daqueles que estarão ocupando, temporariamente, os assentos públicos. Então, só nos resta achar que a elite branca não é tão branca, nem privilegiada assim. Formamos uma massa de 142 milhões de brasileiros com direito a voto e direito de escolha. Precisamos vencer outros desafios, antes mesmo de vencermos a Copa. Precisamos analisar nossos jogadores políticos e suas jogadas mirabolantes. Precisamos fazer a defesa de nossos direitos, impedindo lances de perigo junto a democracia. E precisamos da energia coletiva, em forma de teimosia, para melhorarmos e definirmos o nosso padrão nacional.

Mesmo assim, tivemos uma evento magnífico, exigindo uma organização que envolveu investimentos e retornos com a infraestrutura, com a construções e mobilidade, na geração de empregos, capacitação de profissionais e qualificação de mão de obra, exposição de marcas, cidades e do país, lançamentos de produtos, incremento de marketing de negócios, movimentação econômica, geração de negócios, crescimento do turismo, aumento na arrecadação e faturamento das empresas, transferência de conhecimento, serviços e tecnologia, parcerias e relacionamentos. Assim foi exigido para a festa. Ficamos entorpecidos durante alguns dias, esquecendo os problemas nacionais e pessoais. Convivendo com outros e recepcionando com a alegria que poucos povos sabem fazer. Tivemos férias coletivas, feriados e dias de lazer, colocando a boca no trombone, ganhando e reduzindo tensões, entre berros, gritos e vaias. Reascendemos o espírito e o orgulho nacionalista. Dias que ficarão para a história. Para nossos descendentes. Para contarmos aos nosso filhos e netos. Quem sabe, com algumas outras conquistas, além da taça, que pode ou não, ser nossa novamente.