Crônica social: A Copa e a Elite Branca

Destacado

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por Fernando Cássio, em 06 de julho de 2014

Estamos chegando ao final de mais uma Copa do Mundo FIFA, cujo campeonato mundial entre seleções de futebol alcançou a marca de mais de 200 países ligados na TV e a mais cara entre as últimas 03 copas juntas, no Japão/Coréia, Alemanha e África do Sul. Porém, daqui a pouco teremos um novo campeão. E já é chegada a hora de iniciarmos uma avaliação sobre o evento. Uma análise que poderia alcançar, tão somente, o desempenho dos jogadores e técnicos ou outros cenários associados. Para mim, que não tenho a mínima paciência e domínio sobre o tema futebol, passei a refletir sobre os dribles, lançamentos e estratégias, que simultaneamente aconteceram fora dos 6,5 bilhões gastos nas construções dos campos. Trata-se do capital e das consequências políticas atreladas ao evento. Vivenciamos no Brasil, um momento singular, quando um partido político de esquerda, atua no poder federal por quase 12 anos ininterruptos. Um partido que iniciou um processo de resgate, social e econômico, das classes menos favorecidas, inclusive posicionando o país em melhor condição econômica que o resto do planeta, durante a crise mundial, direcionando a produção nacional para o atendimento das demandas historicamente reprimidas dessa faixa inferior da estratificação social, criando artifícios para o consumo e a manutenção do equilíbrio econômico entre demanda e oferta. Inclusive, criou igualmente artifícios para garantir a dominação política através da dominação social, com programas de conotação semi-escravizantes. Mas, este mesmo partido político também passou a ocupar as manchetes dos jornais, nas páginas policiais, envolto em corrupção, desvio de recursos públicos para a compra de partidos e políticos e desvio de recursos superfaturando operações estatais, culminando com o julgamento e condenação de uma parcela significativa de seus líderes, que ocupava cargos estratégicos na estrutura do governo federal, quase caracterizando a formação de uma quadrilha, reportando um possível e grave envolvimento da imagem presidencial. Para alguns, que vislumbram a moralidade como forma de sustentação de uma sociedade justa, estes fatos seriam suficientes para a devolução da posse do poder, porém, ainda assim, permanecem ocupando cargos públicos nos diversos níveis hierárquicos, inclusive a presidência, enaltecendo a democracia entre investigações e novos fatos policias, que surgem a cada dia.

Com a finalização da Copa, estaremos dando início a mais um sufrágio eleitoral no Brasil. Novas eleições para o cargo de presidente da republica democrática federativa e 26 cargos para governadores dos estados. Será uma corrida em busca da captação de votos e eleitores, com ampla e igual participação de gente inocente, desinformada, despolitizada e outros cheios de ideais e esperança. Será o momento da aclamação de feitos, com efeitos visuais, desejos futuros coletivos com apelos psicológicos e união de partidos e pensamentos desiguais, caracterizando-se deformadas coligações que justificam apenas o momento para a conquista do poder. Então, o oportuno “fuleco” agrega tempero adicional para o importante caldo eleitoral, alçando famintos eleitores, ávidos por desejos e satisfação mínimas e temporais, quase sempre de mente e barriga vazia; eleitores esperançosos com a alternância democrática para a transformação moral e a recuperação cívica do país; eleitores com anorexia eleitoral, descrentes e nulos, bem como, tantos outros que circundam este caldeirão, entre pitadas de verdades e inverdades, ao longo do preparo até o mês de outubro próximo. Ela, a Copa, impulsionou inaugurações! Foram R$ 29,5 bilhões de reais com obras dos estádios e de infraestrutura, sendo mais de 80% com recursos públicos, gerando novas possibilidades financeiras para investimentos nas campanhas eleitorais, antecipando possíveis retornos e desvios contábeis. Empreiteiras e negociações à disposição do esporte sadio. Este é o palco econômico do evento! Ao mesmo tempo, o termômetro que aquecerá as pesquisas eleitorais e as tendências de votos da população, será induzido pelo placar dos jogos. O burburinho de informações e contrainformações receberá uma dosagem adicional, acelerando a mídia, através das empresa de marketing, para proliferar criatividade em prol dos atuais ocupantes do poder e seus opositores. Vencendo a Copa, o país do humor e da inocência receberá adrenalina positiva, embaralhando causas e ofuscando necessidades urbanas e sociais, para o credenciamento e retorno eleitoral de alguns candidatos, além do retorno de investimentos, ocultos e disfarçados. Perdendo, um tsunami de negativação alcançará com extrema energia o país, criando um possível cenário de caça às bruxas e desolação. Tudo será motivo e consequência da derrota, expandindo-se até a contagem de votos. E aí, teremos mais perdedores, além dos jogadores, da comissão técnica de futebol, dos acionistas do poder e investidores. Igualmente terão prejuízos, o Partido dos Trabalhadores – PT, seus seguidores e todos aqueles que se compõem e fazem uso da malha de privilégios, disponível e dedicada ao poder. Será um verdadeiro desmonte!

Mas a Copa também foi dos turistas felizes! Os estrangeiros injetaram R$ 6.000,00 (seis mil reais), em média, na economia, ou US$ 3.000, enquanto que os turistas internos fizeram circular em torno de R$ 1.500,00 ou US$ 700 per capita. Aquele Brasil das metralhadoras circulando em meio ao povão e os assaltos seguidos de morte pouco se viu. Violência também teve ponto facultativo! As malas dos esquartejadores foram momentaneamente substituídas pela frenética circulação de tantas outras, nos aeroportos maquiados e semi acabados. O jornalismo que pontua diariamente a desgraça alheia, em busca da audiência, transferiu suas intenções, focando exclusivamente os jogos e fartas análises. Intensivamente falamos e gesticulamos futebol, com outros povos. Conseguimos ter uma paz encoberta! Bandidos, polícia e povão se comportaram de forma exemplar. Ainda não sabemos o custo das operações militares, mas descobrimos que a segurança pública finalmente conseguiu unir quem nunca havia se juntado. As forças de segurança, entre várias organizações estaduais e federais, partilharam esforços, inclusive com outras nações, integrando sistemas e sistemáticas. Coisa quase impossível de se ver no Brasil! Vivenciamos uma época branda, apenas manchada ou arranhada por quatro excepcionalidades: (1º) a descoberta de uma quadrilha que resolveu capitalizar maior lucro na venda de ingressos, acirrando disputa com o próprio patrocinador, ultrapassando grupos genuinamente nacionais; (2º) a queda de um viaduto e o processo inseguro na construção de outras obras, ceifando vidas, repercutindo na baixa qualidade dos critérios de contratação e suspeição na qualidade das obras públicas já entregues, fortalecendo a metodologia do jeitinho brasileiro de fazer; (3º) a comemoração descabida de alguns desqualificados representantes públicos, que na sua mesquinhez por interesses particulares diante dos interesses do país, tentaram desvalorizar um digno comandante da mais alta corte judicial; e finalmente (4º) um colombiano, intitulando-se jogador, que resolveu trocar a arte do futebol por artes marciais, transformando um golpe mortal em olé, destruindo nossa esperança e expulsando, definitivamente, de campo, o nosso maior exemplo de herói nacional, até a próxima copa.

Talvez, o lucro tenha sido o maior vencedor desta Copa! Ele correu solto por todos os campos, sem sofrer qualquer impedimento. Induziu a economia nacional, bem antes do primeiro apito sonoro de início das partidas. Envolto na magia de ganhos e passes ardilosos, já a partir de 2011, impôs um custo pelo sucesso do evento, adicionado uma carga aos preços, num país que já sofria com impostos, sem retorno visíveis em serviços públicos com qualidade. Criou no entretenimento, um oportunismo econômico, gerando vínculos que acionaram o capitalismo na sua melhor essência. Superfaturou custos em todos os segmentos, chancelando um padrão FIFA, acima da razão, da lógica e da ética da economia nacional. Mas criou um ritmo acelerado no consumo, que deixará saudades, inclusive para os comerciantes informais. Foram consumidas, na Arena Pernambuco, por exemplo, cerca de 7.000 tapiocas durante os três primeiros jogos realizados. Uma média de 2.400 unidades por jogo. Um número simplório, se considerarmos outros tantos ganhos, mas digno de garantir o sorriso incomum para quem, possivelmente não participará novamente de outro evento dessa dimensão, apostando apenas na culinária nordestina, antes de qualquer time, país ou jogador. Com tanto sucesso e tantas outras conquistas atreladas ao evento, mesmo assim, fica a minha dúvida sobre uma velha expressão que volta à tona, particularmente sendo utilizada pelo desgastado Partido dos Trabalhadores, nominada de “elite branca da Copa”. Afinal, quem é essa elite? Quem compõe esta elite branca? Serão aqueles que conseguiram lucrar com o evento, de forma duvidosa, inclusive eleitoralmente? Serão aqueles que permanecem no poder, transfigurados de proletariados, induzindo a população a acreditar que exercitam o poder de forma sacerdotal e inocente, tirando dos ricos para dar aos pobres? Ou serão aqueles outros, filhos do poder, que enriqueceram rapidamente, em função dos cargos e negociatas que realizam, inclusive dedicando espaço e oportunidade familiar para tal? Bem, nessa nação brasileira onde todos nós somos derivados da mistura sanguínea de variados povos e culturas emigrantes, sem clara evidência de uma única cor ou raça, projeta-se uma multiplicidade visível, com etnias que convivem plenamente entre si, sem qualquer limitação geográfica ou religiosa. Mas, vivemos a espera dos resultados do jogo do poder e da melhoria na qualidade do DNA, daqueles que estarão ocupando, temporariamente, os assentos públicos. Então, só nos resta achar que a elite branca não é tão branca, nem privilegiada assim. Formamos uma massa de 142 milhões de brasileiros com direito a voto e direito de escolha. Precisamos vencer outros desafios, antes mesmo de vencermos a Copa. Precisamos analisar nossos jogadores políticos e suas jogadas mirabolantes. Precisamos fazer a defesa de nossos direitos, impedindo lances de perigo junto a democracia. E precisamos da energia coletiva, em forma de teimosia, para melhorarmos e definirmos o nosso padrão nacional.

Mesmo assim, tivemos uma evento magnífico, exigindo uma organização que envolveu investimentos e retornos com a infraestrutura, com a construções e mobilidade, na geração de empregos, capacitação de profissionais e qualificação de mão de obra, exposição de marcas, cidades e do país, lançamentos de produtos, incremento de marketing de negócios, movimentação econômica, geração de negócios, crescimento do turismo, aumento na arrecadação e faturamento das empresas, transferência de conhecimento, serviços e tecnologia, parcerias e relacionamentos. Assim foi exigido para a festa. Ficamos entorpecidos durante alguns dias, esquecendo os problemas nacionais e pessoais. Convivendo com outros e recepcionando com a alegria que poucos povos sabem fazer. Tivemos férias coletivas, feriados e dias de lazer, colocando a boca no trombone, ganhando e reduzindo tensões, entre berros, gritos e vaias. Reascendemos o espírito e o orgulho nacionalista. Dias que ficarão para a história. Para nossos descendentes. Para contarmos aos nosso filhos e netos. Quem sabe, com algumas outras conquistas, além da taça, que pode ou não, ser nossa novamente.

Crônica social: Minha terceira vez na Copa

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por Fernando Cássio, em 23 de junho de 2014

Sensacional! Emocionante! Contagiante! Mais uma vez a plateia interferiu no evento da Copa e realizou uma festa à parte. Nunca vi torcida tão ativa e participativa como os mexicanos. Merecedores de palmas (sem espinhos). Hoje é segunda-feira, dia 23 de junho de 2014 e estamos falando do jogo México e Croácia, próximo a cidade do Recife, capital de Pernambuco, no nordeste do Brasil. Vou adiantar o final do filme: México 3, Croácia 1. E foi um provável e merecido resultado. Mais uma vez estive disfarçado de torcedor, fantasiado com a indumentária tradicional, conforme um fiel seguidor e conhecedor da arte do futebol, sem gerar qualquer suspeita. A chuva não deu trégua durante toda a manhã e já imaginávamos gastar as excelentes proteções plásticas que havíamos comprado e utilizada no primeiro jogo na Arena Pernambuco. Apenas mais uma grande surpresa que acompanhou a pelota. Nada de chuva, mesmo existindo uma grossa camada de nuvens escuras, compondo o teto do gramado. Logo na chegada ao Estádio, observamos que o caminho estava livre e desimpedido. Pouca gente circulava nos arredores. E cadê os torcedores verde e amarelo? Acho que a maior parte deles resolveu assistir o jogo Brasil 4, Camarões 1, que aconteceu simultaneamente em Brasília. Confesso que esse drama me veio a cabeça durante as duas horas que permaneci sentado na cadeira, ouvindo um dos fones de ouvido do som tirado do celular fanhoso da minha mulher. Também é época da tradicional festa junina, que desvia a atenção do povo do Nordeste, à procura pelas cidades de Caruaru e Campina Grande, onde realizam uma grande festa municipal, disputando um campeonato particular e exclusivo, entre as duas melhores festas nacionais de São João. Visualmente também descobrimos que seríamos minoria, bem como a torcida da Croácia. Haviam “Chapolins Colorados” aos montes. Me senti no “Mérrico”, muchachos! Uma chuva de camisas verdes, sombreiros e muita bebida gratuita, já entregue na boca. Entornaram neles e fomos gratuitamente convidados a entornar as aromáticas tequilas. Minha boca enche d’água, até agora, quando me lembro! Oh, vida! Eita, lei seca danada, sô! Mas a consciência fala mais alto e liberei acesso apenas para refrigerantes afrodescendentes, a dez reais (quase 4,5 dólares), cada copo petista. Mais uma vez a elite branca teve que se contentar com os desgostosos sandubas de pão com salsicha, indevidamente apelidados de cachorro quente, com o mesmo padrão dos alimentos servidos pelas nossas empresas aéreas. Haja coração!

Esse foi o primeiro jogo que chegamos com antecedência, mesmo com o tradicional engarrafamento na BR 232. Beleza e emoção maior foi o momento da execução do hino do México. Um coro alto, único e forte, quebrado apenas pelo motor de dois helicópteros da segurança. Estranhamente localizei alguns torcedores com camisas do fluminense, náutico e sporte clube. Excesso de amor, paixão ou doença? Tenho lá minhas dúvidas. Acho que não procede tal comportamento. Fico imaginando um estrangeiro tentando desvendar que país é este? O cara entrou no jogo errado? Comprou os ingressos para amanhã? Mas, que p….. é essa! Vi também um cara fantasiado de Santa Cruz e logo associei ao banheiro. Santa Cruz agora é vaso. É instantâneo! Por sorte, a arena dispõe de mictórios na parede. O cara vai ter que arrancar a parede, velho, caso resolva exercitar a lei da gravidade na cabeça de algum mexicano. Menos mal! Vimos também, lá pelas tantas, quando a tequila já tomava conta do jogo, dois fanáticos torcedores sendo escoltados para o chuveiro. Levaram cartão vermelho da segurança e saíram de campo antes da hora. Vimos também uma briga bem perto da torcida da Croácia. Coisa de delegacia. Um empurra-empurra descendo a ladeira. Isto foi suficiente para decidirmos sair aos 80 minutos de jogo. Dez minutos suficientes para perdermos dois gols, um de cada lado, e ganharmos a liberdade, sem confronto com o adversário cheio de manguaça. E um trajeto de retorno sem engarrafamento. Tínhamos a seguinte preocupação: se o México perder, a turma vai encher a cara e se o México ganhar, aí sim, a turma vai encher a cara. Cientes do dever cumprido, ainda fomos entrevistados na saída do estádio, por uma estagiária de algum jornal ou blog, que pediu uma foto, algumas palavras e o nome completo da minha mulher. Naquele momento, juro que ela já estava se achando a nova Larissa Riquelme da Arena Pernambuco. Mas, até a conclusão dessa crônica não recebemos a ligação de nenhum patrocinador, porém os copos da coleção estão garantidos, contabilizados e já disponíveis para à venda. Ah, já ia me esquecendo: o jogo novamente foi monótono no 1º tempo e mais acelerado no segundo, porém sem conseguir tirar o brilho do público, que ainda vibrava com os gols do Brasil. No gramado, apenas uma visível dificuldade para domesticar a bola, que insistia em dificultar ainda mais o final daquela tarde cruel para todos os “citrovit’ da Croácia. Mas, novamente, continuamos acreditando que a Copa é das Américas!

Crônica social: Minha segunda vez, na Copa

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por Fernando Cássio, em 20 de junho de 2014

Quem continua maldando, errou feio, novamente. Trata-se de coisa séria. O evento de futebol. A Copa do Mundo da FIFA. Mantendo a teimosia, continuo visitando a Arena Pernambuco, fantasiado e disfarçado de torcedor, para colher observações sobre o cotidiano. Agora foi a vez do jogo Itália e Costa Rica. O evento estava previsto para acontecer às 13h, porém já acordamos pensando nele. Pontualmente às 11h já estávamos na reta principal, na via de acesso que conduzia ao local do jogo. E aí descobrimos que o engarrafamento queria um destaque à parte. Depois de uma 01h à disposição da lentidão, conseguimos entrar no ônibus do trajeto estacionamento – arena. O dia lindo e o sol à pino compôs o cenário. Novamente encontramos um policiamento ativo e uma organização na entrada. Parabéns aos profissionais, estaduais, federais e privados. Chegamos atrasados nas cadeiras marcadas e não vimos os hinos. As rampas de acesso resolveram ficar mais longas e íngremes, consumindo a potência dos pulmões e dos pisantes já recuperados pelo primeiro jogo. Vimos noventa por cento do estádio à sombra. E uma ala sortuda e privilegiada, exaltando o rei sol com intensa sessão de bronzeamento natural. Porém, também foi o trecho do estádio mais animado. Provavelmente pelo apimentado calor na moleira. Novamente as pessoas que circulavam foram o grande destaque do evento. Enfeitados e alegres torcedores. Na monotonia do campo, durante o 1º tempo, resolvemos contribuir com a onda coletiva (conhecida como “ola’), assumindo o espetáculo em lugar dos gladiadores em campo. Confesso, mais uma vez, que nem tive preocupação com quem estava pisando na grama. Por sinal, aquele gramado deveria ter um rígido controle de acesso, com uma enorme placa “não pise”. Esses caras ficam correndo, pisoteando a ecologia, sem sentido!

Desde o início apostei no placar de 2 a 0, só para contrariar alguns azuis sentados a frente e a minha mulher, que insistia nos italianos, que nem sei quem eram. Então, resolvi me fazer entoar o coro da Costa Rica, que de rica não tem nada, se comparada com a representante da Europa. A Itália da Ferrari, do Império Romano, do Estado de ouro do Vaticano, do Renascimento, da Ópera, da moda de Milão, dos Imigrantes, do Coliseu. Além disso, de Paulo Rossi. Contra uma Costa Rica, da América Central, de Cristóvão Colombo e 5º lugar no Índice de Desempenho Ambiental. E só! Mas, de oprimida ela passou a ser opressora no segundo tempo. Conduziu a maioria das jogadas e escureceu o brilho do atacante Balotelli, da ex temida Itália . Esse cara ficou bem próximo de fazer nada e congelar em campo. Quem assistiu, imaginou que houve troca de camisas. Ou que a Itália se considerava tão superior que resolveu perder só para fazer raiva e não dá valor ao adversário! Bem, o melhor de tudo foi ver um time, quase fraquinho, vencer um gigante mundial. Mais ainda, foi ver brotar um espírito coletivo empurrando os 40.285 presentes. Desta vez, as feras perderam ibope para os homens e não houve matança. Alguém do meu lado ainda me disse, lá pelas tantas, que o estrago seria maior, com a desclassificação da Inglaterra. Eu nem sabia disso e pouco me importei com o fato. Mas estava em jogo a Inglaterra, do Reino Unido, de Londres, dos Beatles, de Pink Floyd, de Shakespeare e de Alfred Hitchcock. Porém, o suor, os vulcões e as cordilheiras da Costa Rica foram os atributos necessários para a dosagem do suspense que gerou, em um só filme, dois finais, contrários a Hitchcock, envolvendo a desclassificação e a situação vexaminosa dos ingleses e italianos, respectivamente. Após enumeras análises matemáticas, minha prognose imediatista indica que o campeão e os próximos resultados são dirigidos às Américas! Para quem não aguenta futebol e foi apenas disfarçado, acho até que estou me saindo muito bem. Uma rara situação acima do meu comportamento ortodoxo!

O que não mudou entre o primeiro e segundo jogo? Já te digo! A intenção angustiante da coleção absurda de copos descartáveis da minha mulher. A cada jogo saímos com mais e mais copos enfiados na mochila. Isto me parece um obsessão. Um desvio de copos. Um descaminho (Art. 334 do Código Penal). A coisa está tão séria que outros malucos ligam fazendo pedidos. Um vício coletivo e uma virose irremediável. Até alguém já imaginou que estávamos limpando o estádio, como fez os japoneses colecionadores. Ambos enganaram os demais tolos. Ambos estão levando copos para casa. Se realmente for coleção, azar meu. Nem tenho onde guardar tanto plástico. Nem mesmo derretendo ou fazendo festas. Mas se for para comercialização, então estou salvo. Quem sabe nessa Copa a gente não descola uns cascalhos e se descola dos demais. E aí passamos a ser apelidados de elite branca. Isto até me deu uma ideia: vamos pintar uma estrelinha branca em cada um dos copinhos vermelhos e vender as caixas na convenção de um desses partidos desinteressantes que também gostam de ganhar dinheiro na Copa. Quem sabe? Quem sabe!

Crônica social: Minha primeira vez na copa

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por Fernando Cássio, em 14 de junho de 2014

Para alguns, o título poderia sugerir uma detalhada situação de acasalamento, realizada com sucesso, em algum cantinho excepcional. Infelizmente não é! Se você imaginou coisa parecida, procure urgentemente uma sexóloga, psicóloga, psiquiatra ou companheira. Se tiver uma “4 em 1”, melhor! Sua situação é preocupante. Na verdade, vamos tratar da minha primeira visita a um estádio na COPA 2014. Digo, em qualquer tempo. Estamos na Arena Pernambuco. Coisa de gladiador e feras. Não sei em que situação me enquadro. Contudo, antecipo que tive o devido cuidado textual para não juntar certas expressões nacionais, que pertencem ao domínio temporário da FIFA. Mas, cheguei a conclusão que não tenho a mínima paciência para este vai e vem, quando juntam 20 exímios corredores, pulando e saltitando de lá para cá e daqui pra lá, agindo quase sempre da mesma forma. Movimentação que me reporta a um limpador de para-brisas. Acho qualquer outra coisa muito mais interessante na vida. Mas, o que me fascina é a bola. Ela é única e surpreendente! Ela induz. A excepcionalidade proporcionada pela sua teimosia resulta no seu próprio aconchego junto à rede. Como se fosse um cearense em dia de domingo, após um baião de dois, cheio de pequi.

Levei 2h30 para chegar nesse chapelão, parecendo formigueiro em dia de chuva, entre rampas, escadas, filas, grama, mato, lama, mais lama, ônibus, carro, estacionamento, mais fila e lama. Me vi numa excursão ecológica, no pantanal. Com mais 1h30 de duração do jogo, a tarefa fica ainda mais difícil, quando precisamos equilibrar nossas metades laterais em um mínimo espaço de área plástica, pouco maleável, reclinável em apenas uma posição, sem direito a regulagem de altura. Quem esbanja saúde “glútea”, a coisa fica ainda pior. A bola sobe e desce, repetidamente, entre gritos, pipocas, cervejas, comerciais e movimentos coletivos. Ao final, são mais 2h de retorno. Se não bastasse toda essa maratona, finalizada com um rastro em formação de formigas, o corpo também recente pelo evento, quando o coração acelera na emoção dos hinos e jogadas e quando o fígado e o bolso, simultaneamente, reclamam pelos produtos consumidos e pelos altos custos. Um latão de cerveja custou apenas R$ 13,00, enquanto o estacionamento custou R$ 40,00, mais R$ 5,00 do ônibus, por pessoa, no trajeto entre o estacionamento e o estádio. E não para por aí! A prova da caminhada com obstáculos, em torrencial chuva intermitente, me lembrou as provas físicas dos concursos militares e o concorrido paredão do BBB. Agora sei da importância da preparação dos jogadores, durante quatro anos, inclusive para os torcedores. Tirando a monotonia do tapete verde, o resto foi excelente. Muita gente fantasiada. Quase um pré-carnaval de Olinda. Confesso que não vi a “elite branca”, definida por alguns eclesiásticos petistas. Acho que a qualidade das cópias “semi-autenticas”, nas camisas quase oficiais, escondeu uma parcela dos torcedores e não destacou àqueles que podem pagar R$ 300,00 pelo status. Assim, vimos um só público. Diferentes apenas pela miscigenação. Uma mistura quase não identifica quando estamos nos referindo aos japoneses. E uma animação incomum na torcida martinense, com uma harmonia e sonoridade particular. Acima de tudo, muita paz e alegria!

Vencido o meu primeiro jogo, parto para a concentração. Dizem que alguém venceu. Eu venci a minha parte. Venci a impaciência em 06 horas dedicadas ao laser alheio e as boas companhias. Conheci e vivenciei uma nova experiência, no jogo do antes tarde do que nunca! Agora é hora de colocar o padrão na lavanderia e fazer as avaliações. No meu caso, o pisante levou uma surra do adversário. Foi jogo sujo! Meu fiel tênis semi- importado, quase perdeu um dos irmãos gêmeos. No último buraco encontrado, um deles resolveu chafurdar e não estava com a tração ligada. Foi quase um adeus. Juro que pensei, inclusive, em permanecer no estádio até o próximo jogo. Juro, que pensei na dificuldade do deslocamento e na expectativa de não ter tempo suficiente para retornar, em função de tudo, inclusive o engarrafamento de veículos e gente. Mas, tem uma coisa boa: mesmo assim, quero voltar! Acho que não vi tudo. E dizem que ainda falta muito. Estou pagando para ver. Já paguei e vou pagar muito mais. E viva a COPA!

Crônica social: O dia que gol virou “U”

Destacado

16585547Fernando Cássio, em 14 de junho de 2014

“U” elevado ao infinito, em ecos, não é vaia, é uivo! Ato de vociferar! Dirigir censuras e reclamações. Nem representa falta de educação, nem configura ação realizada por menor ou indivíduo incapaz. É coisa de gente grande, extremamente informada, inconformada e descontente! O que seria mais ofensivo para um país? Será que alguém acha absurdo e ofensivo, quando políticos se juntam em bando para assaltar o país, corromper os partidos, interferir no Supremo Tribunal Federal, alterar e interromper o andamento convencional de um julgamento em última instância, tentar manchar a honra de juízes e ministros, induzir investigações, não aceitar as regras da prisão ao ser julgado culpado, inventar doenças para não ir preso e induzir privilégios na cadeia? E porque agora acham uma sonora vaia e alguns apelidos corriqueiros, expressados em campo, anteriormente apenas dedicados aos juízes das partidas, serem tão ofensivos assim? Considerando os costumes sociais de outras terras, em que a forca, a prisão com serviços forçados, a autoflagelação, a destituição do poder ou a própria troca da vida pela honra, seriam únicas saídas aceitáveis para àqueles que cometem desvios similares, então, dadas as circunstâncias, não há porque enfatizar este ato, reduzindo a importância dos fatos que deram causa. Pelo contrário. No máximo, caberia embargos infringentes, para reanálise da trilha sonora. Aquele momento representa, na verdade, um grito abafado, entalado na garganta, quase um “gol”, que soa como uma métrica do sentimento nacional, daqueles de sã consciência, que se indignam e são contrários à corrupção, contra a formação de bandos, contra a injustiça, contra a falta de vergonha e a favor da vergonha alheia. Representa, também, a mão levantada em punho contra àqueles que agridem o povo e o povão, a coletividade, usufruindo das benesses do poder e do domínio da estrutura pública, colocando os interesses partidários e pessoais, acima dos interesse do país, da nação, produzindo políticas públicas com resultados pífios, conforme se verifica na porta dos hospitais e escolas do país, na insegurança que leva anualmente mais de 3 mil pessoas à morte, além de tantos outros serviços ineficientes à cargo do poder partidário temporal. Este som reverbera a reclamação de todos os brasileiros, sem distinção de classes sociais e raças. Esta expressão sugere, inclusive, identidade a outras expressões, de cunho mais latente: Socorro! Me ajudem! Peguem o ladrão! Referenda uma vontade coletiva das ruas, quando qualquer cidadão enxerga, diante de seus olhos sem crítica, a injustiça, a desconfiança e quando constatam a intensidade das irregularidades. Aos seguidores partidários, que louvam e são doutrinados, que santificam e se sacrificam por tais imperfeições, sugerimos repensar o quanto estão contribuindo para este processo. Todos nós, que vivemos no país, somos responsáveis pelo acertos, desacertos, conquistas e descaminhos. Entregamos nossas vontades e sonhos, em votos, nas mãos daqueles que se dizem preparados para governar. Entregamos a vontade coletiva da inovação, quando os governos que se sucedem têm a responsabilidade e a obrigação de empreender esforços no sentido de apresentar melhorias à luz da sensatez, democracia, progresso e respeito.

Quanto as decepções partidárias derivadas das sonoras vaias, creio ser um momento de cabível análise, não só pelo partido político da presidente. Este fenômeno social é natural, plenamente justificável, induzindo a algo que não está bem. Afinal, palmas foram feitas para atender o oposto.A partir delas, acalentamos expressar sentimentos positivos no futuro. Seja com quem for! Quem fez ou financiou. Palmas para o certo, para o empenho e para as conquistas. E vaias para os desacertos. Em igual intensidade aos erros cometidos. Porque aqui há educação, civilidade e não levamos ninguém à força. Só não me façam acreditar que existem “subversivos” ocupando lugares estratégicos, camuflados como “vaiadores” de carteirinha, infiltrados, com o intuito de denegrir, sem motivo aparente. Pois, essa estratégia já foi utilizada, por alguém em outrora, e uivo não é vaia. Mas vergonha, não! Vergonha não tem grau, intensidade. Vergonha é vergonha! Imagine um país com vergonha de si e com vergonha dos outros. Imagine como o resto do mundo observa um país que não consegue ultrapassar um momento impróprio, porque surgem corriqueiramente novas abordagens, mantendo o ibope da notícia ruim, que mancha as verdades e confirma a falta de credibilidade nacional. Imagine os jovens deste país elaborando caminhos baseados em fartas sustentações dessa ordem. Imagine a desordem! Imagine a vaia!

Crônica social: De Sócrates, Karl Marx até o Brasil de agora

Destacado

por Fernando Cássio, em 15 de maio de 2014

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Ética e Moral compõem capítulos da Filosofia e da Sociologia e determinam o ordenamento para construir e viver numa sociedade. A formação moral de um povo é derivada de uma série de comportamentos exercitados pelos poderes constituídos, por grupos e por diversos indivíduos representativos, compondo as referências para garantir a estrutura dessa formação, a fidelidade aos valores e a consciência coletiva. Ora, uma sociedade extremamente informada, exercitando política ativamente nos instrumentos tecnológicos, frustrada e insatisfeita com sua qualidade de vida e dos serviços públicos ofertados, decepcionada com a visível corrupção, afrouxamento e direcionamento no cumprimento do dever, pelos poderes constituídos, refletindo a impunidade, a lentidão e burocracia pública e a leniência, possivelmente tenderá a QUEBRAR O PACTO que agrega os interesses coletivos (convivência, cidadania, coerção e segurança social), fazendo valer seus interesses individuais, engendrando fatos sociais contrários à normalidade e mudanças que colocam em risco à harmonia. Essa evolução caracteriza-se o Brasil de hoje, retratado nos confrontos policias, nos confrontos jurídicos, nos confrontos de rua e nos escândalos políticos, que se multiplicam no cotidiano, diante de todos, quase paralisados, hipnotizados e atônitos com tamanha intensidade (numa quase falta de vergonha nacional). Salve-se, quem puder!

Crônica social: Deus, homens e políticos – houve erro de planejamento ou má formação congênita?

Destacado

Viena Hofbibliotek

elaborado por Fernando Cássio, em 01 de maio de 2014

Esta fábula é fruto da minha imaginação criativa, quase insana, porém para resguardar a necessária segurança jurídica e social, antecipo que qualquer semelhança com fatos reais e surreais é mera coincidência, não havendo necessidade de julgamento, muito menos reação, inclusive alérgica, fatalmente cabíveis em abordagens dessa natureza.

Vamos reportar o tempo, a milhões de anos, quando tudo ainda era poeira. Apenas duas luzes refletiam por aqui. Uma era a Lua, fiel escudeira da Terra, e a outra era um sinal luminoso, propositalmente instalado para indicar a presença de alguma divindade vagando por aqui. Naqueles tempos, vários deuses desciam, por essas bandas, sem medo. Não havia violência, nem propriedades, muito menos movimentos de insatisfeitos ou instituições religiosas, terreiros e encruzilhadas, que, porventura, pudessem requisitar a intervenção ou esforço divino. A sinalização apenas facilitava o controle de entrada e saída, evitando que assim pairasse mais de um deus, ao mesmo tempo, o que seria um inconveniente diplomático no universo, dispondo a terra para o exclusivo sossego, visando a meditação e o ócio divinal. Mas num dia, nem muito especial, sem registro no calendário, um deles, o mais criador e criativo, abatido pela mesmice provocada por essas planícies áridas, que nada se via ao plantar a mão acima dos olhos, resolveu iniciar uma fenomenal arquitetura construtiva, misturando diversas camadas de possíveis substratos moleculares, visando dar forma, vida e dinamismo a esse inóspito lugar. Trouxe para si o desafio de habitar cada centímetro desse paraíso e fazer tudo de forma muita rápida, inclusive para evitar fuxicos e intromissões de outros deuses. Meu projeto é fazer tudo em 07 dias, disse para si mesmo, quase bravejando! O esplêndido senhor do infinito então definiu um prazo para transformar em realidade seu sonho mirabolante. Ainda no calor do planejamento, clarificou estratégias, direcionando almejar a perfeição da criação à sua imagem e semelhança, com um ordenamento de execução, das coisas mais simples às mais complexas, até o último dia. Para um deus tão poderoso, fator crítico de sucesso não seria problema! Foi indicada apenas uma única restrição negativa: limitação de tempo no sétimo dia em função de possível convocação para outros afazeres celestiais. Nada demais, para um deus! Então, partiu imediatamente para a execução. Que se façam as matas, os matos, as verduras e o arrumadinho; que se façam as aves, os frigoríficos, os rodízios e as churrascarias; que se façam os seres rastejantes – carros, tartarugas e minhocas, os engarrafamentos, o trânsito, as multas, as buzinas e os bafômetros; que se façam os morros, as planícies, as construtoras, a mídia e as imobiliárias; que se façam as águas calmas e revoltas, entre rios, mares, correntezas, destilados e as aguardentes; que se façam as luzes no formato das estrelas, nos postes e nos letreiros de led, o marketing e a comunicação visual; que se façam as nuvens, as chuvas, os entupimentos, as previsões, os alagamentos e o lixo. Enfim, quase tudo estava pronto!

Deus Criador, feliz com todas as realizações e metas quase cumpridas, resolveu descansar. Dormiu em sono profundo. O Destino, deus do tempo incerto e muito gozador, resolveu dar uma chegada na Terra, sem avisar, quebrando a regra da sinalização. Viu e ficou maravilhado com tanta criatividade, porém desejava a todo custo pregar uma peça no organizado deus criador. Então, de posse do planejamento divino, verificou tão somente o que indicava o fator crítico de sucesso. Com o poder da imitação, o deus Destino ludibriou o deus Criador, imitando a voz do supremo rei dos deuses, convocando seu imediato retorno aos céus. Ainda sonolento, Deus Criador abriu os olhos com tamanha surpresa e deixou por aqui as últimas elaborações, em fogo brando, semiacabados, para não desobedecer ordens superiores. Deixou a terra enriquecida de gêneros e variedades, para deleite dos outros deuses, inclusive autorizando a fusão das estruturas recém criadas, permitindo uma progressão de espécimes nunca imaginada. Seguiu seu caminho, prometendo retornar um dia. Até hoje não se tem notícia dessa data, embora sua vinda consta como promessa, sendo pleiteada e usada por oportunistas, aventureiros e crédulos.

Mas, o brincalhão deus do Destino não imaginava o mal maior que poderia causar. O fogo acesso mantinha as últimas criações, as quais não seriam vistas pessoalmente pelo Deus Criador, por conta de uma tremenda brincadeira mitológica. Dizem, que foram deixadas em cozimento três matérias, em processo final de composição, por serem as mais difíceis obras divinas: o homem, a mulher e o político. As últimas etapas do projeto estavam ali quase prontas, porém em fogo baixo e sem o olhar atento do cozinheiro, não há receita que dê certo. O Deus Destino, astucioso, resolveu ainda mexer nas panelas de barro que mantinham o substrato em ebulição, misturando as três porções. O caldo engrossou, a fumaça ocupou o ambiente e de fininho ele resolveu desaparecer. Até hoje, raios e trovões são percebidos aqui na terra e dizem que são decorrentes da calorosa discussão entre divindades que habitam o universo. Qual seria a intenção do Criador em separar três gêneros em distintas porções? Qual seria a missão inicialmente destinada a cada um deles?

Passado algum tempo, no belíssimo paraíso edificado, entre terras e águas, surgem as tais criaturas, agora multiplicadas, com derivações de cor, gênero, classes, especialidades, costumes, diretos, vontades e dialetos, sustentando interesses grupais, sempre em prol de ideais minoritários. Emblemáticos, passaram a povoar a terra, apoderando-se do dom da racionalidade, invocando a divinização, transformando humanos, em anjos, semideuses, representantes e procuradores dos céus, enquanto vivos ou mortos. Ensejaram guerras, a dominação, a submissão, o controle, o poder e o capital, assegurando-lhes perpetuar vantagens, para si e para os seus, eternamente. Mas, os homens e as mulheres e talvez alguns políticos, em raros casos de exceção, também contribuíram para a evolução. A teimosia em colocar sonhos em prática, permitiu uma linha evolutiva, de perfeições e melhorias, nas ciências e nas tecnologias, carecendo, talvez, de rapidez na implementação desses resultados junto a humanidade, ampliando a solidariedade e reduzindo os interesses mercantis. Mas, até que ponto o acaso das misturas gerou tempero suficiente para as fatalidades do mundo hodierno? Somente aos deuses caberá tal resposta! O aguardado retorno trará consigo o mistério da criação. Teremos então uma nova ordem planetária ou saberemos enfim, que o destino, mais uma vez, atuou sob consentimento, sem ele mesmo saber, contribuindo para uma omissão proposital, visando a experimentação do criador. Aí, agora, você poderia me questionar: em que dado momento estariam inseridos a maldade e o pecado nessa trama? E eu te devolvo: e você acha mesmo necessário?

Crônica social: PRECISAMOS DE UMA NOVA ORDEM NO BRASIL!?

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por Fernando Cássio

Este assunto encontra alento na democracia e no processo eleitoral. Este é o aspecto científico – teórico. Porém, vivemos expectativas e uma insatisfação coletiva. Chegamos no exato momento decisivo onde, de um lado, existe uma desconfiança e uma descrença generalizada instalada no país, em todas as classes de profissionais, inclusive nos políticos, e do outro lado, uma necessidade de respostas governamentais rápidas. Se os segmentos de educação, saúde e segurança, tão convencionais e sob a responsabilidade e tutela pública pouco evoluíram, mesmo sendo acompanhados por uma sociedade cada dia mais informada, crítica, insatisfeita, exigente e cobradora, o que dizer dos demais aspectos que garantem uma nação. Eis aí o nosso xeque! Ao longo dos anos, os governos (nos níveis e esferas, federal, estadual, municipal, legislativo, judiciário e executivo), salvo raras exceções, pouco se profissionalizaram, procurando implantar uma nova forma de gestão administrativa, mais próxima, ágil e presente, eficiente com menor custo, focando resultados sociais. Vivenciamos uma avalanche de suspeitas e fatos consumados de corrupção e abuso de poder, antes de qualquer notícia alvissareira, gerando uma maior pressão social a cada dia. As ruas estão mostrando isso! Aos homens que almejam cargos eletivos e aos gestores que atuam no intrincado mundo da burocracia pública, informo a necessidade de assumir um dever de casa diferente. Precisamos corrigir valores e aplicar regras sociais e a própria justiça sem distinção e com rigor; precisamos combater ineficiências, a falta de compromissos e a prática de agendas públicas isoladas e demagógicas; precisamos implantar uma nova onda, sem modismos, junto a máquina pública, viciada na burocracia e desviada dos conceitos de meritocracia, para dar espaço à capacidade de interferir positividade na vida das pessoas e dos negócios; precisamos valorizar a igualdade e criar oportunidades para o seu exercício; precisamos distinguir as obrigações públicas e privadas e cobrar responsabilidades, enfim domar as atitudes proativas e execrar àqueles que não coadunam com a ordem comum.Uma nova tábua dos mandamentos. Será que temos desafios à enfrentar e há discordância significativa quanto ao andamento desse nosso Brasil? Sera!

crônica: Previsão eleitoral – de quem será o Brasil

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elaborado por Fernando Cássio, em abril de 2014

A próxima eleição no Brasil, em outubro de 2014, vai colocar em confronto duas expectativas de futuro distintas, envolvendo os candidatos dos 03 principais partidos – PT (com Dilma Rousseff), PSDB (com Aécio Neves) e PSB (com Eduardo Campos): de um lado a preocupação empresarial que precisa enxergar se o arcabouço econômico e institucional proposto nos programas e promessas eleitorais vão permitir que a produção de bens alcance a produtividade necessária (em custo, preço final e margens), a partir de uma reformulação conjuntural (leis, marcos regulatórios, infraestrutura, equilíbrio das contas, juros, eficiência dos gastos públicos, entre outros) e do outro lado, a preocupação da população que também precisa enxergar nesses mesmos programas e promessas eleitorais se haverá desenvolvimento e melhorias sociais (basicamente na saúde, educação e segurança, os quais geram baixos índices e resultados nacionais), inclusive a continuidade do direito de consumo de bens e oportunidades, mantendo-se a inflação e os preços controlados.

O processo inflacionário merece um parêntese. Estamos com um índice inflacionário na ordem de 6% ao ano, decorrente do represamento de preços de serviços públicos, que fatalmente provocaria uma inflação real, caso houvesse o ajustamento, na casa dos 7,5% ao ano. Em alguns setores, essa tentativa governamental já foi enxergada, e paulatinamente, os preços já estão sendo corrigidos, sem consentimento. Este fato já é sentido, inclusive, pela população nas visitas aos supermercados. Ao mesmo tempo é fato que houve uma aceleração no consumo, pela recuperação financeira de grande parcela da população, porém não houve, na mesma intensidade, mecanismos governamentais que garantissem a produtividade e a produção industrial, diga-se produzir mais com menor custo.

As estratégias das campanhas estarão direcionadas para estes dois blocos: empresariado e população, contudo, em função do passado recente dos partidos, devem surgir duas linhas distintas de atuação: 1º) o PT destacando a sua premiação internacional ao atuar junto a população, quando reduziu a miséria (medida extremamente louvável), ampliando a faixa na estratificação que compreende a classe média brasileira, gerando consumo interno como remédio para a crise interna e mundial, inclusive ofertando a bula para países desenvolvidos (O ex-presidente Lula da Silva foi aclamado de “o cara” por Barack Obama, no ápice da crise). Porém, também será avaliado pelo conjunto negativo que marcou a sua passagem nos últimos 12 anos no poder, envolto em casos comprovados de corrupção, compra de votos, má administração em empresas estatais, quando correligionários foram apresentados no Supremo Tribunal Federal e na Polícia Federal, exigindo uma dinâmica de atuação nessas instituições, nunca visto no Brasil; e 2º) o PSDB e o PSB, através dos seus modelos de gestão pública, exercitados e premiados internacionalmente (o governo de Eduardo Campos do PSB foi premiado pelo Banco Mundial mais de uma vez), tentarão gerar a confiança necessária junto ao empresariado, acenando para as mudanças estruturais que o país exige, baseado no modelo de administração (não perseguido pelo PT) , sem perder de vista o compromisso, junto a população, das garantias sociais até então inauguradas pelo PT.

Caso haja equilíbrio nas pesquisas, diga-se de passagem durante os programas eleitorais de tv e rádio, a reta final de chegada da disputa será surpreendente e emocionante, pois, o peso do financiamento das campanhas e o peso do eleitorado estarão possivelmente confrontando o mesmo espaço, projetando uma injeção financeira do empresariado descontente e a injeção dos votos da massa agraciada com o “semi-cabresto” eleitoral das bolsas sociais (que tiveram seu sentido econômico ultrapassado pelo psicológico).

Mas, já a partir de 2015, seja quem for o eleito, serão exigidas medidas duras em função das crises que apontam, por exemplo, no setor energético (preços defasados, produção sem lastro e baixa capacidade para atender as necessidades), no setor econômico (uma tendência inflacionária real e crescente, preços dos serviços públicos represados, necessidade de conter o consumo e/ou ampliar a produção) e a bendita infraestrutura que teima em continuar mal integrada, gerando estradas, portos e ferrovias distantes dos centros produtores e das produções, ampliando os preços e inviabilizando a concorrência. Assim eu pergunto: de quem será o Brasil? Quem viver, verá!

Crônica: A Era da Vulgaridade

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elaborado por Fernando Cássio, em março de 2014

Vulgarizaram a vulgaridade! À princípio o termo vulgar encontra significado positivo na coisa comum ou popular, porém também guarda registro negativo como definição de qualquer coisa de procedência ruim, de natureza baixa, grosseira e rude. Ao acrescentar vulgaridade à vulgaridade, estamos atestando que houve excesso. Um incremento que pode ter provocado o transbordar caracterizado como falta de elegância, sutileza, na sociedade. O escritor Ariano Suassuna, da Academia Brasileira de Letras, é veemente quando expõe esse tema. Para ele, o deselegante não deveria ter espaço social e a sutileza impõe à capacidade do intelecto em processar e prover a melhor forma de expressão, mesmo quando se deseja deslizar pelo vulgar. Mas, ele é dos poucos que levanta essa bandeira e lamenta esse descabido novo costume às regras sociais, sem falso moralismo. Seria correto afirmar que a sociedade vivencia essa danosa escassez de equilíbrio? Ou são cacoetes e sofismas criados por àqueles que se perderam na evolução social? Talvez sim, talvez não!

Tenho a nítida sensação que estamos passando por uma zona de turbulência social, a qual exige aperto no senso crítico e cuidado redobrado na educação e na formação do nosso povo. Para simplificar e exemplificar, digamos que algumas palavras perderam o sentido e a sua força perante a sociedade. Sensatez, vergonha, credibilidade são algumas delas. Sócrates dizia que nada sabia e que a virtude real é a busca pelo conhecimento. Então, como mero observador da vida, me disponho a auscultar e expor algumas vertentes que sugerem a extrapolação desse limiar, que caracteriza a convivência social, ou mais ainda, expor uma tendência cruel que está à caminho, configurando a quebra de parâmetros que qualificam uma sociedade equilibrada, sadia, pacífica e justa. De cara, me confronto com a mídia, a musicalidade, as expressões culturais, a política, as crenças e a moral. Parece que houve uma contaminação em larga escala, adoecendo e apodrecendo quase tudo, simultaneamente. A falta de crença e ordem são os focos dilacerantes de qualquer povo, nação. Assim estamos investindo! Regras e práticas sociais uniformes foram deslocadas para o campo da dúvida, criando especulações, inclusive na mais alta corte jurídica do país. O que falar então de uma nação que mexe em um dos alicerces da sua sustentação? Quase um estado de guerra! Resolvemos mudar e mudar tudo aceleradamente. Será uma ação despretensiosa? Uma revolução de valores? Talvez pudéssemos circular pelas virtudes nacionais. Onde estão elas? Resolveram trancafiá-las à sete chaves. O que dizer das expressões de baixa qualidade que circulam livremente nos livros, na web, nas bocas e na prática diária. O que dizer do corpo e da sexualidade, massificados na mídia, livres de qualquer limite, expostos, para a aprendizagem coletiva, provocativos e destacados, mais importantes acima de qualquer outro ensinamento. É, parece que o obsceno virou óbvio! E que todos entendam também como é óbvio degenerar. Mais ainda, porque corrompemos as localidades, forçando um padrão global, sem qualquer padrão, ultrapassando e corroendo, inclusive, costumes e vontades locais, deturpando histórias e criando uma fictícia vontade capitalista, bem longe dos mais altos desejos ali existentes? Porque masculinizar ou atrofiar gêneros distintos, cultuando tipos ou destaque para a mistura entre mesmos, passivos ou ativos, apenas com o ideal filosófico exacerbado de comungar práticas, esquecendo que a adaptação e a formação familiar é a base mais importante de qualquer agrupamento? Porque descaracterizamos quadrilhas, ladrões e penas, misturando poder e contravenção, aniquilando a moralidade e gerando perspectivas deturpadas sobre uma sociedade anarquista? Cadê os bons exemplos, as boas práticas e os bons costumes? Quem está encarregado de promover os geniais e a inventividade da nossa gente? Porque qualificamos despretensiosamente como gênios, aqueles circenses do futebol, que carregam a bola de lá para cá, sem qualquer compromisso nacional?

Enfim, provavelmente a ética (ciência das condutas) de Aristóteles encontra-se em transe, aguardando melhor momento para ser reinstalada no país. Que venha com a mesma rapidez da degeneração, que opera livremente, criando novos costumes e sobrepondo outros. Que chegue antes que descarrilhe a sociedade. Que o Brasil real, conceituado por Ariano Suassuna, não se deixe destruir pelo Brasil oficial, pois nada é demais, até que se torne coletivamente exercitado, transformando vícios em hábitos, quase imperceptíveis, destruindo o maniqueísmo, que sugere distinção entre o bem e o mal, caso existam.

Crônica: Arrecadação e fé na coisa pública

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elaborado por Fernando Cássio, em fevereiro de 2014

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Um movimento que à princípio poderia se caracterizar como mais um fato político que reascende a indignação popular, pode ser entendido e caracterizado como uma boa ação. Se vivemos num país democrático, onde se respeitam as instituições, as regras jurídicas e sociais, a constituição, mas também onde há multiplicidade de correntes religiosas, com o acatamento de todas as formas de cultos, adorações e procedimentos relacionados a salvação dos pecadores e a fé, então não há como não aceitar tal desprendimento. Acredito que nesse caso houve uma boa ação coletiva, de alguns. Nobreza. Então, devemos aplaudir! Aplausos para àqueles que se manifestaram favoráveis. Cônscios da tarefa de centralizar esforços, contribuir e arrecadar. Mais rápidos ainda que os próprios sistemas públicos de arbitragem e do tesouro. Eu estou convencido de que, nunca, na história desse país, haverá uma única pessoa que poderá afirmar que estes proletariados seriam cúmplices de qualquer erro semelhante. Nunca poderemos afirmar que acatam o desvio e a lavagem de recursos públicos. Que acatam o egoísmo partidário ou a atuação em bando para realizar igual ação. O erro cometido, investigado, julgado e marcado na história servirá eternamente para exemplificar que o purgatório é aqui mesmo. Que a sociedade entende que não há espaço para cometer desvios de conduta pública, na ocupação temporária de cargos, utilizando-se do poder para chancelar o desvio de verbas, a compra de votos e manchar a democracia e a própria história de um país. Nesse exato momento, quando alguém subtrai orçamento de sua casa, somando para àqueles que subtraíram do país, não está ofertando o outro lado da face, nem tão pouco passando a mão na cabeça dos desprezíveis seres humanos, anteriormente transfigurados de políticos. Houve plena justiça, inclusive a divina. Assim, resta-nos entender que a boa ação é apenas subjetiva. Individual. Sem protesto! Encara-se como ato de compaixão e espírito de piedade, sem qualquer benefício para si ou para os alheios. Não configura-se a empatia, solidariedade ou altruísmo. Também não configura-se veneração, por mais que alguns homens públicos se esforcem ou desejam tal qualificação. Portanto, mantenham-se as sentenças, as penalizações e a justiça terrena, deixando para o reino dos céus, em momento oportuno, o julgamento final e a análise definitiva dos embargos infringentes, das penas inicialmente imputadas àquelas almas decaídas, que falharam no transcurso da missão político-partidária. Que a generosidade também se faça constar nos registros divinos daqueles que fizeram as doações. Dessa forma, Deus escreve mais uma vez certo por linhas tortas e o fim não justifica os meios, Maquiavel!

Crônica: Pavios acessos no Riocentro e na Candelária tiveram motivações semelhantes

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Fernando Cássio, em 14 de fevereiro de 2014

Houve algo em comum nos eventos ocorridos em 30 de abril de 1981 (conhecido como o Atentado do Riocentro) e 06 de fevereiro de 2014? O fato é que estes artefatos de pólvora ascendeu a atenção dos brasileiros, tendo como palco a cidade do Rio de Janeiro, levando a morte de um ser humano e marcando um momento singular na história política brasileira, exigindo uma parada estratégica para a reflexão, impulsionada pelos meios de comunicação. Poucos dias antes dos atentados, uma outra explosão configurava-se nas ruas, como uma onda social exigindo uma nova ordem. A população estava se compondo coletivamente e pacificamente com o intuito e a livre expressão do descontentamento. Antes, pela opressão, e recentemente pela desconfiança e descrença nos poderes constituídos – diga-se políticos e ações relacionadas. Afinal, o que estaria por trás desses interesses obscuros, em cessar um legítimo movimento cívico? Provavelmente o medo da perda do controle das massas e a possibilidade de mudança no formato que coordena e comanda o poder público. Antes, o medo da democracia, e agora, o receio da reengenharia, que poderia, por consequência, alterar significativamente a constituição das casas legislativas, por exemplo, como primeira medida. Particularmente, advogo a extinção desse modelo arcaico, aonde representantes que em nada representam a maioria, recebem para votar, em nome do povo e das cidades, quando, porventura, resolvem apresentar projetos, recebendo mensalmente vultosos e fixos salários e vantagens. Um poder paralelo que se faz pernicioso pela troca de favores e pela circulação de recursos, públicos e privados, chancelando mudanças ou garantindo a permanência daquilo que necessita evolução. Este é apenas um dos possíveis casos de transformação!

Nesses eventos, os recrutados (dois militares em 1981 e dois civis em 2014) foram respectivamente responsabilizados. Porém, o primeiro evento, provocou a morte de um dos causadores da ação, que lutava pela manutenção da ditadura, enquanto que no segundo evento, dois causadores da ação provocaram a morte de um inocente que cumpria papel profissional em nome da transparência e da democracia. Ambos, levados por um descuido do destino que resolveu acionar o estopim antes do momento adequado, causando uma série de consequências, inclusive o esfriamento dos movimentos obscuros. Camuflados, na condição de bandos, extremamente politizados no 1º caso e extremamente despolitizados no segundo, infiltrados em movimentos sociais, que aconteciam às claras, sem disfarces e qualquer intenção de violência, com reivindicações justas. Ambos, utilizaram-se da mesma intenção: agitar, acelerar as consequências negativas e na falta de vestígios, imputar a culpa em terceiros, na desordem e no poder da força sobre a razão. Ambos, buscavam a posse do direito e do poder ou a própria manutenção da condição hodierna. Inicialmente a culpa parece concentrar-se na tipificação da revolta de alguns desestruturados, porém no caminhar das investigações encontra-se uma estrutura organizada de sustentação, que financia tais atos. Os recursos que financiaram as bombas e rojões em 1981 e 2014, guardam a mesma proporção e intenção. Em essência, são todos provenientes dos impostos que colocamos nas mãos dos políticos e dos gestores públicos para a melhoria das ruas que devem servir de lazer, mobilidade e justo espaço para as reivindicações sociais. Porém, o rojão que tirou a vida é igual a bala que diariamente também subtrai vidas no nosso país. São mais de 50 mil assassinatos/óbitos por ano! Gente que diariamente sai de suas casas para enfrentar esse campo de batalha chamado Brasil.

Crônica: Botox espiritual e social

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elaborado por Fernando Cássio, em outubro de 2013

Projeções populacionais baseadas no Censo de 2010,  divulgadas pelo IBGE, indicam que a população brasileira com idade acima de 65 anos  deve passar de 14,9 milhões (7,4% do total), em 2013, para 58,4 milhões (26,7% do total), em 2060. A idade média passou para 78,5 anos e a taxa de fecundidade caiu. Em resumo: caminhamos inexoravelmente para o amadurecimento e coletivamente  para um país de velhinhos.

Porém, para não ser engolido pelo pessimismo e pela destrutiva concepção deturpada da sociedade,  precisaremos de um mantra e uma série de dicas para nos mantermos  ativos e joviais. À princípio assuma esta frase: ”sou espiritualmente jovem, mesmo envelhecendo”! O fato é que essa depreciação biológica inicia-se  desde o dia que nascemos e desde o momento jurídico, quando é emitida a certidão dando fé da sua existência. A partir daí, o tempo não tem tempo para parar! E ao final dessa leitura, tanto eu quanto você teremos envelhecido alguns minutos, sem a menor aprovação e consentimento. Mas, no último  século, existe uma sensação no ar que a vida está freneticamente ativa e os segundos parecem que assumiram uma velocidade acima dos padrões  convencionais, de outras épocas. Parece que o tempo encurtou.   Também fomos  transformados em números, marcas e resultados. Passamos a ser escravos de nós e das métricas impostas e exigidas pelos centros urbanos.  O mundo acelerou e exige igual comportamento. É invariavelmente mutante e transformador. O consumo e os  modismos impostos pelos domínios comercial e econômico também contribuíram. E nessa evolução somos empurrados para o meio do salão ou para as cadeiras. Quem não acompanha a musicalidade da mudança está certamente cavando seu próprio enterro e sua acomodação no cemitério dos elefantes.

Bem, como envelhecer sem dar mostras ao inimigo? Pois é! Diferente de algumas culturas, envelhecer no Brasil é trilhar o caminho do descredenciamento da imagem  produtiva e da atenção governamental e social. Como não vamos encontrar solução mágica e na agilidade que nos interessa, então suscitaremos algumas dicas, que poderão sustentar um possível disfarce para sobreviver nesse cruel habitat.

Quem já ouviu falar nas gerações x e y? Tão estranhas definições que enquadram incógnitas nessa conceituação sociológica temporal. Quase cômico!  Uma tentativa de expurgar e delimitar os usuários tecnológicos, entre jovens e velhos. Sinto que esse momento já se foi. Estamos agora na “Era do cal” e na “Era das frases curtas com cercas (#)”. Preste atenção no seu entorno  e veja como tudo ficou branco. Do carro ao celular, dos relógios aos fones de ouvido. Tudo embranqueceu. O mundo e seus acessórios perderam a cor. A produção de tênis foi o único setor que contrapôs essa assertiva, acatando a multiplicidade da textura do arco-íris na sua produção. Também, os longas textos e explicações da alma humana deram lugar a frases e sentimentos  curtos, resumidos,  em difíceis traduções e hieróglifos, jogados à ermo na rede social e no “twitter”.  Parece estranho para você? Não deixe que essa afirmativa se apodere do espírito. Modifique sua forma de agir! E se possível, a forma de pensar. Tire sua vida do ostracismo, como um barco definitivamente ancorado e siga a corrente, com emoção. Basta de acomodação e mesmice! Adote o modismo! Passe a usar cerca (#) em tudo que traduz suas ideias. Ao mesmo tempo, não prolongue  suas produções literárias em mais de um parágrafo,  sob pena de não serem lidas.  Adote o branco momentâneo  e encardido e transfigure suas ideias, quase prefixadas. Dê oxigenação e novos desafios ao corpo e a mente.

Não peça ajuda e nem corra atrás de ninguém. Procure por você no espelho e adote um senso crítico apurado. Note que algumas tênues linhas de expressão já ocupam a face, reduzindo os espaços de elasticidade.  Alguns cabelos já se foram e outros resolveram pratear. Mas lembre-se, você ficou bem melhor.  Sempre melhor! Cada segundo representa uma nova experiência adquirida.  Mesmo que o cérebro, na sua maldade  plástica, resolva te enganar, criando uma projeção virtual de alguém que você discorde, siga a corrente e mude a imagem, física  e mental. Torne-se apresentável e contraponha esse erro cerebral. Invista e insista em você.  Seja metrossexual! Será uma  forma de acalentar e injetar energia adicional para seguir adiante. Uma dosagem de empolgação, para completar o percurso.  Afinal,  a jornada é  longa e não foi concluída. E não insista em enxergar ou imaginar a linha de chegada. Aquele que é dono de tudo e comanda o universo não deixaria essa missão para um estagiário como você ou eu. Além disso, o destino é matreiro e a métrica da existência sempre surpreende. Então construa a sua  própria imortalidade passageira. Mantenha-se ativo e aceso para tudo e para todos. Adote a mudança como palavra de ordem e compromisso da alma. Atraia a atenção das  pessoas, percebendo o quanto são importantes as trocas e os  relacionamentos, mesmo que passageiros.  Inclua nesse rol de mudanças a humildade para aprender. Sempre existe algo a ser acrescentando as nossas vidas, através de quem quer que seja o indutor. Às vezes um curto diálogo acrescenta muito mais que longos discursos. Dessa forma, abra seu coração e permita que novos conhecimentos cheguem testando suas afirmações e verdades.

Tenho a exata sensação que viemos a esse mundo com a missão de tentar acertar. Progredir. Melhorar  o que fazemos, compartilhamos e influenciamos. Iniciamos uma luta diária desde o nascimento até o último suspiro. E nesse nível de compreensão, somos iguais, com estórias de vida semelhantes.  Vivenciamos  dificuldades, alegrias, conquistas, amarguras, mas acima de tudo,  um esforço de sobrevivência. Um esforço pautado nas relações, nas comparações com o mundo e acima de tudo na necessidade de  responder aos instintos provocativos da sociedade, aquilatando com alguns e com nós mesmos. Perseguimos, em suma,  uma cobrança interior. Uma eterna vontade de mudar.  De melhorar.  Um projeto de vida e um conjunto de sonhos.  Arquitetamos  incansáveis vontades e desejos, despreocupados com a tempo que já passou e deixou marcas. Diante desta constatação é possível imaginar que apenas sofremos avarias no casco, porém crescemos e fortalecemos muito o nosso interior. Lembre-se, ainda, que o tempo não se permite retroceder. Então, viva intensamente para não dar conluio ao arrependimento.

Faça coisas. Dê preocupações para os seus dias. Mas tente realizar e concluir algo. Não imagine grandes obras. Nem tenha medo de começar uma nova experiência. Projete os próximos dias, até alcançar um nível de planejamento mais prolongado. Cobre de você as realizações e metas impostas. Sonhe, planeje, preocupe-se, realize e exercite. Se possível exercite o corpo, não só o espírito. Mente sã exige um corpo saudável.  Ambos serão seus aliados para seguir essa estrada sem sinalização, que requer paciência e amortecedor. Acima de tudo sonhe! No final, companheiro, não haverá final. Apenas entregaremos nossas energias, sonhos e exemplos de vida aos que ficam e permanecem. São eles que terão a missão da continuidade e o congelamento de  nossas lembranças,  herança e hereditariedade. Assim manteremos a nossa jovialidade por gerações e gerações.