Crônica: A Era da Vulgaridade

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elaborado por Fernando Cássio, em março de 2014

Vulgarizaram a vulgaridade! À princípio o termo vulgar encontra significado positivo na coisa comum ou popular, porém também guarda registro negativo como definição de qualquer coisa de procedência ruim, de natureza baixa, grosseira e rude. Ao acrescentar vulgaridade à vulgaridade, estamos atestando que houve excesso. Um incremento que pode ter provocado o transbordar caracterizado como falta de elegância, sutileza, na sociedade. O escritor Ariano Suassuna, da Academia Brasileira de Letras, é veemente quando expõe esse tema. Para ele, o deselegante não deveria ter espaço social e a sutileza impõe à capacidade do intelecto em processar e prover a melhor forma de expressão, mesmo quando se deseja deslizar pelo vulgar. Mas, ele é dos poucos que levanta essa bandeira e lamenta esse descabido novo costume às regras sociais, sem falso moralismo. Seria correto afirmar que a sociedade vivencia essa danosa escassez de equilíbrio? Ou são cacoetes e sofismas criados por àqueles que se perderam na evolução social? Talvez sim, talvez não!

Tenho a nítida sensação que estamos passando por uma zona de turbulência social, a qual exige aperto no senso crítico e cuidado redobrado na educação e na formação do nosso povo. Para simplificar e exemplificar, digamos que algumas palavras perderam o sentido e a sua força perante a sociedade. Sensatez, vergonha, credibilidade são algumas delas. Sócrates dizia que nada sabia e que a virtude real é a busca pelo conhecimento. Então, como mero observador da vida, me disponho a auscultar e expor algumas vertentes que sugerem a extrapolação desse limiar, que caracteriza a convivência social, ou mais ainda, expor uma tendência cruel que está à caminho, configurando a quebra de parâmetros que qualificam uma sociedade equilibrada, sadia, pacífica e justa. De cara, me confronto com a mídia, a musicalidade, as expressões culturais, a política, as crenças e a moral. Parece que houve uma contaminação em larga escala, adoecendo e apodrecendo quase tudo, simultaneamente. A falta de crença e ordem são os focos dilacerantes de qualquer povo, nação. Assim estamos investindo! Regras e práticas sociais uniformes foram deslocadas para o campo da dúvida, criando especulações, inclusive na mais alta corte jurídica do país. O que falar então de uma nação que mexe em um dos alicerces da sua sustentação? Quase um estado de guerra! Resolvemos mudar e mudar tudo aceleradamente. Será uma ação despretensiosa? Uma revolução de valores? Talvez pudéssemos circular pelas virtudes nacionais. Onde estão elas? Resolveram trancafiá-las à sete chaves. O que dizer das expressões de baixa qualidade que circulam livremente nos livros, na web, nas bocas e na prática diária. O que dizer do corpo e da sexualidade, massificados na mídia, livres de qualquer limite, expostos, para a aprendizagem coletiva, provocativos e destacados, mais importantes acima de qualquer outro ensinamento. É, parece que o obsceno virou óbvio! E que todos entendam também como é óbvio degenerar. Mais ainda, porque corrompemos as localidades, forçando um padrão global, sem qualquer padrão, ultrapassando e corroendo, inclusive, costumes e vontades locais, deturpando histórias e criando uma fictícia vontade capitalista, bem longe dos mais altos desejos ali existentes? Porque masculinizar ou atrofiar gêneros distintos, cultuando tipos ou destaque para a mistura entre mesmos, passivos ou ativos, apenas com o ideal filosófico exacerbado de comungar práticas, esquecendo que a adaptação e a formação familiar é a base mais importante de qualquer agrupamento? Porque descaracterizamos quadrilhas, ladrões e penas, misturando poder e contravenção, aniquilando a moralidade e gerando perspectivas deturpadas sobre uma sociedade anarquista? Cadê os bons exemplos, as boas práticas e os bons costumes? Quem está encarregado de promover os geniais e a inventividade da nossa gente? Porque qualificamos despretensiosamente como gênios, aqueles circenses do futebol, que carregam a bola de lá para cá, sem qualquer compromisso nacional?

Enfim, provavelmente a ética (ciência das condutas) de Aristóteles encontra-se em transe, aguardando melhor momento para ser reinstalada no país. Que venha com a mesma rapidez da degeneração, que opera livremente, criando novos costumes e sobrepondo outros. Que chegue antes que descarrilhe a sociedade. Que o Brasil real, conceituado por Ariano Suassuna, não se deixe destruir pelo Brasil oficial, pois nada é demais, até que se torne coletivamente exercitado, transformando vícios em hábitos, quase imperceptíveis, destruindo o maniqueísmo, que sugere distinção entre o bem e o mal, caso existam.

Crônica: Arrecadação e fé na coisa pública

Destacado

elaborado por Fernando Cássio, em fevereiro de 2014

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Um movimento que à princípio poderia se caracterizar como mais um fato político que reascende a indignação popular, pode ser entendido e caracterizado como uma boa ação. Se vivemos num país democrático, onde se respeitam as instituições, as regras jurídicas e sociais, a constituição, mas também onde há multiplicidade de correntes religiosas, com o acatamento de todas as formas de cultos, adorações e procedimentos relacionados a salvação dos pecadores e a fé, então não há como não aceitar tal desprendimento. Acredito que nesse caso houve uma boa ação coletiva, de alguns. Nobreza. Então, devemos aplaudir! Aplausos para àqueles que se manifestaram favoráveis. Cônscios da tarefa de centralizar esforços, contribuir e arrecadar. Mais rápidos ainda que os próprios sistemas públicos de arbitragem e do tesouro. Eu estou convencido de que, nunca, na história desse país, haverá uma única pessoa que poderá afirmar que estes proletariados seriam cúmplices de qualquer erro semelhante. Nunca poderemos afirmar que acatam o desvio e a lavagem de recursos públicos. Que acatam o egoísmo partidário ou a atuação em bando para realizar igual ação. O erro cometido, investigado, julgado e marcado na história servirá eternamente para exemplificar que o purgatório é aqui mesmo. Que a sociedade entende que não há espaço para cometer desvios de conduta pública, na ocupação temporária de cargos, utilizando-se do poder para chancelar o desvio de verbas, a compra de votos e manchar a democracia e a própria história de um país. Nesse exato momento, quando alguém subtrai orçamento de sua casa, somando para àqueles que subtraíram do país, não está ofertando o outro lado da face, nem tão pouco passando a mão na cabeça dos desprezíveis seres humanos, anteriormente transfigurados de políticos. Houve plena justiça, inclusive a divina. Assim, resta-nos entender que a boa ação é apenas subjetiva. Individual. Sem protesto! Encara-se como ato de compaixão e espírito de piedade, sem qualquer benefício para si ou para os alheios. Não configura-se a empatia, solidariedade ou altruísmo. Também não configura-se veneração, por mais que alguns homens públicos se esforcem ou desejam tal qualificação. Portanto, mantenham-se as sentenças, as penalizações e a justiça terrena, deixando para o reino dos céus, em momento oportuno, o julgamento final e a análise definitiva dos embargos infringentes, das penas inicialmente imputadas àquelas almas decaídas, que falharam no transcurso da missão político-partidária. Que a generosidade também se faça constar nos registros divinos daqueles que fizeram as doações. Dessa forma, Deus escreve mais uma vez certo por linhas tortas e o fim não justifica os meios, Maquiavel!

Crônica: Pavios acessos no Riocentro e na Candelária tiveram motivações semelhantes

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Fernando Cássio, em 14 de fevereiro de 2014

Houve algo em comum nos eventos ocorridos em 30 de abril de 1981 (conhecido como o Atentado do Riocentro) e 06 de fevereiro de 2014? O fato é que estes artefatos de pólvora ascendeu a atenção dos brasileiros, tendo como palco a cidade do Rio de Janeiro, levando a morte de um ser humano e marcando um momento singular na história política brasileira, exigindo uma parada estratégica para a reflexão, impulsionada pelos meios de comunicação. Poucos dias antes dos atentados, uma outra explosão configurava-se nas ruas, como uma onda social exigindo uma nova ordem. A população estava se compondo coletivamente e pacificamente com o intuito e a livre expressão do descontentamento. Antes, pela opressão, e recentemente pela desconfiança e descrença nos poderes constituídos – diga-se políticos e ações relacionadas. Afinal, o que estaria por trás desses interesses obscuros, em cessar um legítimo movimento cívico? Provavelmente o medo da perda do controle das massas e a possibilidade de mudança no formato que coordena e comanda o poder público. Antes, o medo da democracia, e agora, o receio da reengenharia, que poderia, por consequência, alterar significativamente a constituição das casas legislativas, por exemplo, como primeira medida. Particularmente, advogo a extinção desse modelo arcaico, aonde representantes que em nada representam a maioria, recebem para votar, em nome do povo e das cidades, quando, porventura, resolvem apresentar projetos, recebendo mensalmente vultosos e fixos salários e vantagens. Um poder paralelo que se faz pernicioso pela troca de favores e pela circulação de recursos, públicos e privados, chancelando mudanças ou garantindo a permanência daquilo que necessita evolução. Este é apenas um dos possíveis casos de transformação!

Nesses eventos, os recrutados (dois militares em 1981 e dois civis em 2014) foram respectivamente responsabilizados. Porém, o primeiro evento, provocou a morte de um dos causadores da ação, que lutava pela manutenção da ditadura, enquanto que no segundo evento, dois causadores da ação provocaram a morte de um inocente que cumpria papel profissional em nome da transparência e da democracia. Ambos, levados por um descuido do destino que resolveu acionar o estopim antes do momento adequado, causando uma série de consequências, inclusive o esfriamento dos movimentos obscuros. Camuflados, na condição de bandos, extremamente politizados no 1º caso e extremamente despolitizados no segundo, infiltrados em movimentos sociais, que aconteciam às claras, sem disfarces e qualquer intenção de violência, com reivindicações justas. Ambos, utilizaram-se da mesma intenção: agitar, acelerar as consequências negativas e na falta de vestígios, imputar a culpa em terceiros, na desordem e no poder da força sobre a razão. Ambos, buscavam a posse do direito e do poder ou a própria manutenção da condição hodierna. Inicialmente a culpa parece concentrar-se na tipificação da revolta de alguns desestruturados, porém no caminhar das investigações encontra-se uma estrutura organizada de sustentação, que financia tais atos. Os recursos que financiaram as bombas e rojões em 1981 e 2014, guardam a mesma proporção e intenção. Em essência, são todos provenientes dos impostos que colocamos nas mãos dos políticos e dos gestores públicos para a melhoria das ruas que devem servir de lazer, mobilidade e justo espaço para as reivindicações sociais. Porém, o rojão que tirou a vida é igual a bala que diariamente também subtrai vidas no nosso país. São mais de 50 mil assassinatos/óbitos por ano! Gente que diariamente sai de suas casas para enfrentar esse campo de batalha chamado Brasil.

Crônica: Botox espiritual e social

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elaborado por Fernando Cássio, em outubro de 2013

Projeções populacionais baseadas no Censo de 2010,  divulgadas pelo IBGE, indicam que a população brasileira com idade acima de 65 anos  deve passar de 14,9 milhões (7,4% do total), em 2013, para 58,4 milhões (26,7% do total), em 2060. A idade média passou para 78,5 anos e a taxa de fecundidade caiu. Em resumo: caminhamos inexoravelmente para o amadurecimento e coletivamente  para um país de velhinhos.

Porém, para não ser engolido pelo pessimismo e pela destrutiva concepção deturpada da sociedade,  precisaremos de um mantra e uma série de dicas para nos mantermos  ativos e joviais. À princípio assuma esta frase: ”sou espiritualmente jovem, mesmo envelhecendo”! O fato é que essa depreciação biológica inicia-se  desde o dia que nascemos e desde o momento jurídico, quando é emitida a certidão dando fé da sua existência. A partir daí, o tempo não tem tempo para parar! E ao final dessa leitura, tanto eu quanto você teremos envelhecido alguns minutos, sem a menor aprovação e consentimento. Mas, no último  século, existe uma sensação no ar que a vida está freneticamente ativa e os segundos parecem que assumiram uma velocidade acima dos padrões  convencionais, de outras épocas. Parece que o tempo encurtou.   Também fomos  transformados em números, marcas e resultados. Passamos a ser escravos de nós e das métricas impostas e exigidas pelos centros urbanos.  O mundo acelerou e exige igual comportamento. É invariavelmente mutante e transformador. O consumo e os  modismos impostos pelos domínios comercial e econômico também contribuíram. E nessa evolução somos empurrados para o meio do salão ou para as cadeiras. Quem não acompanha a musicalidade da mudança está certamente cavando seu próprio enterro e sua acomodação no cemitério dos elefantes.

Bem, como envelhecer sem dar mostras ao inimigo? Pois é! Diferente de algumas culturas, envelhecer no Brasil é trilhar o caminho do descredenciamento da imagem  produtiva e da atenção governamental e social. Como não vamos encontrar solução mágica e na agilidade que nos interessa, então suscitaremos algumas dicas, que poderão sustentar um possível disfarce para sobreviver nesse cruel habitat.

Quem já ouviu falar nas gerações x e y? Tão estranhas definições que enquadram incógnitas nessa conceituação sociológica temporal. Quase cômico!  Uma tentativa de expurgar e delimitar os usuários tecnológicos, entre jovens e velhos. Sinto que esse momento já se foi. Estamos agora na “Era do cal” e na “Era das frases curtas com cercas (#)”. Preste atenção no seu entorno  e veja como tudo ficou branco. Do carro ao celular, dos relógios aos fones de ouvido. Tudo embranqueceu. O mundo e seus acessórios perderam a cor. A produção de tênis foi o único setor que contrapôs essa assertiva, acatando a multiplicidade da textura do arco-íris na sua produção. Também, os longas textos e explicações da alma humana deram lugar a frases e sentimentos  curtos, resumidos,  em difíceis traduções e hieróglifos, jogados à ermo na rede social e no “twitter”.  Parece estranho para você? Não deixe que essa afirmativa se apodere do espírito. Modifique sua forma de agir! E se possível, a forma de pensar. Tire sua vida do ostracismo, como um barco definitivamente ancorado e siga a corrente, com emoção. Basta de acomodação e mesmice! Adote o modismo! Passe a usar cerca (#) em tudo que traduz suas ideias. Ao mesmo tempo, não prolongue  suas produções literárias em mais de um parágrafo,  sob pena de não serem lidas.  Adote o branco momentâneo  e encardido e transfigure suas ideias, quase prefixadas. Dê oxigenação e novos desafios ao corpo e a mente.

Não peça ajuda e nem corra atrás de ninguém. Procure por você no espelho e adote um senso crítico apurado. Note que algumas tênues linhas de expressão já ocupam a face, reduzindo os espaços de elasticidade.  Alguns cabelos já se foram e outros resolveram pratear. Mas lembre-se, você ficou bem melhor.  Sempre melhor! Cada segundo representa uma nova experiência adquirida.  Mesmo que o cérebro, na sua maldade  plástica, resolva te enganar, criando uma projeção virtual de alguém que você discorde, siga a corrente e mude a imagem, física  e mental. Torne-se apresentável e contraponha esse erro cerebral. Invista e insista em você.  Seja metrossexual! Será uma  forma de acalentar e injetar energia adicional para seguir adiante. Uma dosagem de empolgação, para completar o percurso.  Afinal,  a jornada é  longa e não foi concluída. E não insista em enxergar ou imaginar a linha de chegada. Aquele que é dono de tudo e comanda o universo não deixaria essa missão para um estagiário como você ou eu. Além disso, o destino é matreiro e a métrica da existência sempre surpreende. Então construa a sua  própria imortalidade passageira. Mantenha-se ativo e aceso para tudo e para todos. Adote a mudança como palavra de ordem e compromisso da alma. Atraia a atenção das  pessoas, percebendo o quanto são importantes as trocas e os  relacionamentos, mesmo que passageiros.  Inclua nesse rol de mudanças a humildade para aprender. Sempre existe algo a ser acrescentando as nossas vidas, através de quem quer que seja o indutor. Às vezes um curto diálogo acrescenta muito mais que longos discursos. Dessa forma, abra seu coração e permita que novos conhecimentos cheguem testando suas afirmações e verdades.

Tenho a exata sensação que viemos a esse mundo com a missão de tentar acertar. Progredir. Melhorar  o que fazemos, compartilhamos e influenciamos. Iniciamos uma luta diária desde o nascimento até o último suspiro. E nesse nível de compreensão, somos iguais, com estórias de vida semelhantes.  Vivenciamos  dificuldades, alegrias, conquistas, amarguras, mas acima de tudo,  um esforço de sobrevivência. Um esforço pautado nas relações, nas comparações com o mundo e acima de tudo na necessidade de  responder aos instintos provocativos da sociedade, aquilatando com alguns e com nós mesmos. Perseguimos, em suma,  uma cobrança interior. Uma eterna vontade de mudar.  De melhorar.  Um projeto de vida e um conjunto de sonhos.  Arquitetamos  incansáveis vontades e desejos, despreocupados com a tempo que já passou e deixou marcas. Diante desta constatação é possível imaginar que apenas sofremos avarias no casco, porém crescemos e fortalecemos muito o nosso interior. Lembre-se, ainda, que o tempo não se permite retroceder. Então, viva intensamente para não dar conluio ao arrependimento.

Faça coisas. Dê preocupações para os seus dias. Mas tente realizar e concluir algo. Não imagine grandes obras. Nem tenha medo de começar uma nova experiência. Projete os próximos dias, até alcançar um nível de planejamento mais prolongado. Cobre de você as realizações e metas impostas. Sonhe, planeje, preocupe-se, realize e exercite. Se possível exercite o corpo, não só o espírito. Mente sã exige um corpo saudável.  Ambos serão seus aliados para seguir essa estrada sem sinalização, que requer paciência e amortecedor. Acima de tudo sonhe! No final, companheiro, não haverá final. Apenas entregaremos nossas energias, sonhos e exemplos de vida aos que ficam e permanecem. São eles que terão a missão da continuidade e o congelamento de  nossas lembranças,  herança e hereditariedade. Assim manteremos a nossa jovialidade por gerações e gerações.

Crônica: Carta aos Noivos

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Elaborado por Fernando Cássio, em setembro de 2013.

Agora é para valer! Vocês resolveram  apertar o laço do matrimônio e definitivamente dar um nó, iniciando a contagem para a  mudança da condição social. De sozinho(a) para eternamente acompanhado(a).  São definidos alguns atributos  e surgem fatos que determinam esse momento especial, que a princípio será único e particular. Depois de vários sapos e carruagens de abóboras, enfim existe grande possibilidade de ter encontrado a metade da laranja e a alma gêmea, tão requisitada nos sonhos e sentimentos. É chegado o momento de se render a matemática, identificando forte  probabilidade de acerto da incógnita que relutava em não ser a solução dos seus problemas. E se você não tem dedo pobre, então não  será uma tarefa tão onerosa. Ora, já era tempo! Seu esforço enfim  foi recompensado! Enfim, entre santos, preces, quiromancias, feitiçarias e simpatias, algo deu certo. Daqui adiante surgem apenas duas pequeninas preocupações: será que é isso mesmo que quero para mim? E como vou anunciar isto perante a sociedade?  Os próximos capítulos estarão corroendo a sua mente. Até lá, será uma longa caminhada, onde ambos estarão enfrentando uma maratona de questionamentos , os quais somente existem na raça humana, diferente dos demais animais que estão no processo de pré-acasalamento.

Mas antes da elaboração da festividade e do formalismo jurídico-social,  vamos verificar se realmente observamos os atributos que definem a perfeita escolha. E servem para ambos. O escolhido(a) tem que possuir poderes e magias, quase sobrenaturais. Qualidades que apontam para a perfeição e que sobressaem dos comuns. Aquele jeitinho que faz uma batida diferente no seu coração. Que dá o descompasso. A capacidade de fazer, desfazer, exercer, praticar e ressaltar. Que se viram nos 30, como diz o Faustão! Além disso, precisam passar pelo crivo dos pais, irmãos e parentes de plantão. Ter antecedentes, mesmo que criminais e louvor junto a SERASA e ao SPC. Também no campo das qualidades, o vitimado(a) deve apresentar uma sinalização de futuro não tão incerto quanto ao seu. E que, pelo menos, tenha obtido aprovação mediana no teste de insanidade. Porque casar é complicado e com doido, pior ainda, mesmo contrariando a máxima que diz que “casamento é coisa de doido”.

Vencida essa etapa, então corra par acelerar o ordenamento, antes que alguém desista da ideia.  Dizem também por aí que a novidade é imbatível, então não vale a pena arriscar e perder a sua alma pretendida, quase assegurada, já com os parafusos da plaqueta de propriedade, para alguém, de última hora,  que fez brilhar os olhinhos da sua posse e da sua presa. E como anunciar esse feito para a sociedade? Alguns se limitam a preservar a notícia apenas para os mais próximos, colocando uma pequena mensagem no “facebook”. Barato, rápido, eficiente e fato eletronicamente disponível para as fofocas!  Outros já realizam os proclamas publicando extrato no diário oficial da cidade e afixando nos postes e murais públicos, incluindo o envio de convites e senhas da festa, limitando a participação, sob a justificativa do controle “fale agora ou cale-se para sempre”. Contratempos surgem e devem ser evitados. Porém, não existe a melhor forma. O mais importante é avisar a sociedade que a partir daquele dia, aquela criatura tem dono(a), e que a propriedade não deve ser ultrapassada da porteira, porque tem cachorro brabo tomando conta.

Qual seria então o formato da festa? Alguns resolvem arquitetar uma cerimônia digna de conto de fadas, com gastos que vão além da imaginação. Outros, mais sensatos, resolvem transferir a responsabilidade para os amigos. Como se fosse uma vaquinha para os pombinhos. Uma estranha zoo combinação. Parece coisa de jogo de bicho. Afinal, ali estará alguém ou alguns que assumiram o papel de cupido, contribuindo para o último tiro da macaca, sendo corresponsáveis pela retirada do peso psicológico que persegue a mente feminina:  “vai ficar para a titia”.  Alguns dias atrás, assisti um filme que mostrava um casamento em um bar. Achei muito criativo e sugestivo. Uma rodada de bebidas é paga pelo noivo, uma outra pela noiva, algumas pelos padrinhos e o resto com a passagem do chapéu. Todos participam, todos bebem, comemoram e sentem-se responsáveis pelo casal e pelo evento. Que igreja que nada. Case num bar. Esse é meu conselho etílico. Democrático e participativo. Outras pessoas mais inteligentes e perspicazes utilizam como carona, os eventos do momento, a exemplo do   carnaval, procissão, enterro,  São João, reduzindo os custos dos enfeites e  armando a maior cilada nupcial, encaçapando o atordoado pré-aliançado. Eu, particularmente, fui vítima da saga demoníaca da minha marida. E, por coincidência, surtiu efeito duradouro. Permanecemos juntos, mesmo depois que acordei.  O fato é que existem dois públicos distintos nessa hora. Uns querem algo completamente diferente. Do tipo, casar na lua, festejar em marte, endedado com os anéis de Júpiter. Outros, mais tradicionais, preferem o quite nupcial com arranjos, padre, orquestra e roupas especiais. Mas, o mais importante é a palavra que soa como posse. O sim. Sem ele, sem essa expressão, todo o esforço será em vão. Que morra após o sim, mas antes, nunca!  Que fuja após as fotos, mas antes jamais. Que corra e peça asilo em alguma embaixada, mas só depois do eterno e sonoro sim. É bom lembrar, em tempos de judiciário duvidoso, que  este fato impositivo não cabe qualquer embargo infringente. Não se anula um sim de casamento. Nem que fosse de José Dirceu!  Oh, dúvida que atormenta as mentes humanas! Será que somos criados exclusivamente para este fim? Como um “Matrix”? Será que este é o clímax do nosso ego! Daí adiante surge uma longa estrada a ser percorrida de mãos dadas.  Novos propósitos e desafios estarão avaliando a comunhão. E o maior deles, sem dúvida, será conservar esse “sim” pela eternidade .  Que vençam as turbulências em pleno exercício e voo matrimonial. Que floresça mutuamente a paciência, a sabedoria, a maturidade e o companheirismo nos momentos mais difíceis. Que ambos declarem e assumam seus  defeitos e fraquezas e façam as necessárias correções ao longo do trajeto. Que as diferenças sejam minimizadas e equalizadas. Que saiam da moita  e se apresentem despidos, exercitando a transparência. Que falem, troquem e estabeleçam segredos. Que o individualismo nunca sobressaia. Que a felicidade seja o maior propósito. Só assim haverá temperatura suficiente para preservar este sim, até quando Deus imaginar suficiente. Porém, caso não perdure, continue correndo atrás,  teimosamente, beijando sapos, exercitando a podolatria, com  sapatos imaginários de  cristais, porque a vida seria muita chata, sem essas fantasiosas realidades que impomos a nós mesmos.

Crônica: Completamente aéreos

Destacado

Fernando Cássio, 25/08/2013

Depois de tantas idas e vindas, circulando em inúmeros aeroportos, me especializei como um perspicaz observador desse cenário. Um caçador de tipos. Mas, afinal, que diabos de especialidade é essa? O olheiro dos bastidores, das salas de embarque, onde circulam milhares de pessoas iguais e diferentes, com características incomuns, que se assemelham. Um detetive social que consegue agrupar tipos que se destacam da maioria e que são comumente encontrados, em larga escala, nos aglomerados. Pessoas que talvez passariam desapercebidas aos olhos da maioria, mas que surgem, repetidamente, emblemáticas, marcantes e contextualizam estes ambientes estressantes.

Temos no Brasil mais de 2.400 aeroportos, o que nos credencia a segunda colocação mundial, apenas atrás dos EUA. O volume de cabeças que circulam é crescente e exponencial, exigindo mais banheiros, restaurantes, elevadores, estacionamentos, esteiras, etc… E o governo, com o peso da sua burocracia, não tem agilidade para contornar o tumultuado e eletrizante mundo dessas salas de expedição. Uma eterna falta de estrutura que induz a pensar na limitação humana, sempre prevendo erroneamente a relação entre o crescimento populacional e o dimensionamento desses espaços físicos.

Qualquer um, com uma pequena calibragem ocular, poderia assumir essa missão, instalando-se numa dessas confortáveis poltronas de embarque, acompanhando atentamente a avalanche de raças e segmentos sociais. Então se for usuário de determinadas empresas aéreas, terá tempo suficiente, conforme aconteceu comigo, nessa última viagem, quando ganhei um atraso de cerca de 02 horas, imprescindíveis para a conclusão dessa matéria.

Vejamos quais são os grupos que mais ocupam estes lugares:

• Os hippies da era moderna: preferem exclusivamente ocupar o chão do saguão, com atenção voltada para os seus tabletes, micros, celulares ou simultaneamente toda essa parafernália eletrônica. Vivem em grupo, mas comportam-se isoladamente. Permanecem solitários, como se estivessem elaborando documentos importantes, porém não passam de eternos viciados em jogos e redes sociais.
• Os nipónicos: representam os coreanos, chineses, japoneses e congêneres de olhos esticados e apertados. Com passos curtos, jeito tímido, roupas discretas e poucas palavras, numa dialética murmurante, muitas câmaras e registros em fotos. Atuam em grupo e numa mesma cadência.
• As metidas: perseguem insistentemente a moda e oferecem brilho e ouro por onde passam. Preferem vestimentas sempre em tamanho inferior e cores extravagantes. De olhar enjoado e nariz empinado, ofertam pouca simplicidade e muita vaidade. Transformam os corredores em passarelas e contrapõem as outras vestes que também circulam. Dificilmente circulam com outras da espécie, até para não reduzir sua performance e seu brilho.
• Os velhinhos tradicionais: fantasiados com vestimentas arqueológicas e descombinadas, sempre circulam com um exemplar de jornal em baixo do braço, para facilitar o equilíbrio corporal ou melhorar a aerodinâmica. Na maioria dos casos são simpáticos quando não estão cochilando. Também nunca tem pressa e ocupam os melhores lugares nas filas. São adeptos do cultivo de longos fios de cabelo no nariz, orelhas e sobrancelhas.
• Os negociadores de plantão – ocupam sonoramente o ambiente por onde circulam e não medem esforço para que todos saibam sobre o que estão tratando através do celular. São perfeitos atores no uso da telefonia móvel, comportando-se como exemplos do gerentes dinâmicos e super-heróis dos grandes problemas. Permanecem com seus receptores ligados até o último segundo de tolerância dos demais passageiros e tripulantes.
• Os estilosos – os mais modernos que circulam. Apresentam estamparias que sugerem um papel de parede ambulante. Não seguem tendências, pois são a própria moda, contrariando a mesmice das vestimentas e acessórios.
• Os confusos – sempre perdidos, atrasados e atrapalhados. Visualizam várias vezes os registros nos vídeos, porém nunca encontram relação com o seu bilhete. São chamados nos sistemas de som e se orgulham ao alcançar o avião, a escada e o assento.
• Os chapeleiros: cabeças enfeitadas com criatividade e tradicionalidade, trazendo à evidência variadas formas de cobertas, no formato de bonés, boinas e chapéus, de variados tipos de composição e cores, não importando a hora, o clima e a situação. Conduzem os adereços com elegância e garbo, quase que colados ao pescoço.
• Os letrados – exacerbam o direito gravitacional. Conduzem verdadeiras bíblias e processos jurídicos em formato de livros. São contumazes consumidores das livrarias e marombeiros da língua portuguesa. Antecipam o exercício da leitura em qualquer canto, antes e durante o voo, sem qualquer sintonia com o entorno.
• Os espaçosos – por natureza e contrapondo o criador, já ocupam dois lugares ao mesmo tempo. Testam a paciência e os limites, esticando as suas vontades sobre os demais. Carregam alegorias e malas gigantescas, como se estivessem executando uma mudança de residência, de forma aérea. Não estão satisfeitos enquanto não ocupam duas ou três cadeiras sem a mínima preocupação com o alheio. Quando conseguem embarcar as quinquilharias, dificultam os corredores, a acomodação e os espaços alheios.
• As crianças – agregam alegria e quebram o formalismo. Mas também quebram todas as demais regras de convivência e paciência, exigindo e expondo os pais. Passageiros que sentam-se à frente desses vulcões de energia, aprendem rapidamente que sossego não é palavra praticada durante a viagem. Crianças e avião não combinam. Existe um tenor e um praticante de artes marciais em cada uma delas, a verificar os choros e pontapés nas cadeiras.
• Os bêbados – estão sempre em câmera lenta e amplificados. Aproveitam a ausência do bafómetro e entornam tudo que é possível, geralmente por medo, vício ou ambos. São os inimigos naturais das aeromoças e comissários e desagradam a unanimidade.
• Os fumantes – são vítimas em potencial da sociedade sadia e mantém a teimosia do salutar desejo. Juntam-se para degustar a arte da nicotina. Sempre encontram um motivo para retornar à saída dos aeroportos, a cada conexão realizada. Massacrados pela arquiteta, em função das dimensões e distâncias das salas, só terão, no futuro, apenas a cabeceira da pista como seu único habitat para fazer fumaça.
• Os oradores – aproveitam o espaço e a demora do serviço aéreo para praticar a eloquência e o dom da fala. Investem-se na figura dos pastores, freiras, vendedores de ideias, psicólogos, paqueradores ou simplesmente solitários cidadãos. Falam seguidamente sem qualquer vínculo ou interjeição dos desavisados. Também não respiram para não dar a vez a ninguém. A única forma de se livrar desses tipos, que inflam os ouvidos, é se fingir de morto.
• Os arapongas – verdadeiros homens de preto, disfarçados com fantasias de agentes, mantendo um comportamento que em nada garantem seus disfarces. Estão sempre alertas para as conversas alheias e fuxicos de pé de orelha. Enquadram nessa lista os jornalistas, detetives particulares, militares, seguranças e todos os outros que gostariam de ter uma dessas profissões.

Bem, a partir de agora seus relacionamentos e sua forma de diagnosticar e conviver com o mundo poderá ser ampliada. Exercite também o seu dom de observação e procure acrescentar novos tipos a essa lista, pois outros seres devem estar por aí, e precisam ser coletados e catalogados, pelo menos na sua lente da razão. Então, aproveite a curta estadia, e se possível, uma boa convivência e viagem!

Crônica: Km 51

Estou bem próximo de atingir a marca dos 51 anos agora no dia 02 de maio. Quando mais jovem sempre ouvi dizer que os marcos seriam passagens e momentos difíceis de serem acatados. Segui adiante sem muito me preocupar com este assunto e hoje vejo que ultrapassei o km 20, 30, 40 e o 50. Na marca dos 30 me imagina no auge do vigor físico e com a inteligência plena. Na marca dos 40 me decepcionei com as poucas realizações e uma sensação que pouco fiz, por não ter atingido as minhas expectativas e castelos. Na marca dos 50, mais amadurecido pela vida, me enxerguei novamente ativo, dinâmico, integrado e participativo, sem a necessidade da demonstração social do vigor e da clarividência do sucesso sob todas as formas. Passei a entender que essa energia deveria ser canalizada, transformando grandes desejos e conquistas em conquistas com qualidade, sem pressa ou sobressaltos. Aquele vigor desperdiçado nos quilômetros suplantados, poderia ser adequado a uma nova realidade e em novos desafios daqui adiante! Aprender e empreender mais! Passei a enxergar o mundo de forma mais humana e emotiva, mas também reduzi substancialmente o instinto da competição, do individualismo e da busca irracional e frenética pelo sucesso. Possivelmente a sabedoria se instalou em meu sistema operacional, atualizando os principais programas que comandam a minha visão sobre o mundo e clareando aspectos ainda não percebidos: o universo e todo o seu conjunto de energias, a dualidade como princípio da vida, a aceitação, a contestação e o entusiasmo. Entusiasmo baseado na utilização da tecnologia para permitir agregar ideias e pessoas em rede. Descobri também que ainda falta muito por fazer, muito por aprender e tempo suficiente para amoldar o espírito que reluta dentro dessa casca que dá os primeiros sinais de cansaço. Uma luta incansável entre a alma e o espelho, pois não sinto a idade, mesmo que o reflexo apresente uma outra realidade. Também me deparei com o medo, deixado lá atrás no km 10. Não mais aquele medo do escuro, do desconhecido, mas o medo provocado pela violência gratuita e covarde que insiste em arrodear as pessoas, escondida e disfarçada em cada esquina. Passei também a respeitar a força divina que colabora para reduzir as dificuldades, dores e fraquezas humanas. Passei a ter um link direto com Deus, sem efetuar qualquer pagamento de mensalidade aos pseudos representantes dos céus. Assim, sigo adiante, com algumas melhorias e mantendo alguns defeitos, pois o homem de ferro só existe na imaginação. Levo adiante o conceito que o ser humano é perfeitamente moldável para o bem, caso consiga perceber, aceitar e surfar sobre as ondas das mudanças. Conscientemente ou levado pelas circunstâncias, passamos todo o ciclo de vida em busca da melhoria e da felicidade. Isto me parece ser o resumo da nossa estadia! Nessa luta diária, envolvemos, nos envolvemos, acatamos, criticamos, desacreditamos e procuramos. Na caixa das procuras jogamos nossos sonhos. E, a cada ano, próximo à comemoração do nascimento, então abrimos essa embalagem para rever, fuçar, avaliar, renovar e incluir novos sonhos. Neste exclusivo lugar guardamos a energia para a continuidade da nossa existência física. Sei agora porque consegui ultrapassar os quilômetros e continuar caminhando. Agora sei porque cheguei no km 51!

Crônica: Mobilidade Estagnada

Destacado

Elaborado por Fernando Cássio em 10/04/2013

Neste exato momento “mobilidade” é sinônimo de caos e desconforto. No ambiente público o emprego dessa diretriz governamental reporta a justificativa dos governantes em minimizar o fraco desempenho e atuação pública na manutenção da infraestrutura urbana e na geração de novos espaços territoriais. Conceitualmente poderíamos estabelecer o seguinte corolário: mobilidade é o “dom” de fazer a cidade crescer e crescer organizada, facilitando o direito de circulação física e comercial, no menor espaço de tempo, sem prejuízo e constrangimento! O que parece improvável e impossível de acontecer no nosso país.

O artigo 5º da Constituição Federal estabelece o que se convencionou a chamar de direito de ir e vir de todos os cidadãos brasileiros. Na prática, é dado a todos, sem exceção, o poder do deslocamento. Contudo, nessa assertiva existe um fato incontestável: cabe aos governos prover e fomentar a ocupação das cidades e garantir meios e a infraestrutura necessária para fazer valer este direito. Já havíamos mencionado, em uma outra crônica, os centros urbanos inteligentes e como as cidades devem se auto sustentar para garantir essa efervescência sem trincar os tubos de ensaio que limitam o seu espaço territorial. Agora, ao inserir o conceito de “mobilidade”, que é um dos subtemas relacionados às cidades inteligentes, constatamos de cara, que essa terminologia é provocativa, retirando qualquer possibilidade de limitação ou fixação espacial, conforme havíamos comparado cidades a tubos de ensaio ou caixas. Nunca poderíamos configurar cidades dessa forma, contudo em decorrência dos baixos investimentos públicos, devido as más administrações e o longo período inflacionário que vivenciamos, não há como não utilizar tal exemplificação. Desta forma, estão relacionados ao tema dois grandes desafios: (i) como avançar lateralmente as cidades, reduzindo as densidades urbanas, criando novos espaços e atrativos para que haja desconcentração e (ii) como “azeitar” o apertado mundo que vivemos, os chamados “tubos de ensaio”, reduzindo o caos iminente provocado por uma série de fatores que agregam pressão urbana. A palavra mágica é “desconcentrar”. Como exercitar o crescimento horizontal em lugar do vertical? Eis a questão! A desordem das cidades é uma doença crônica, quase sem antídoto.

Este assunto, por acaso, encontra-se na pauta dos governos, porque atingimos o limite e a sociedade está mais atenta e participativa! Além da falta de investimentos, temos a prática insensata de políticas urbanas desfocadas. Ações que apenas contribuem para amenizar essa problemática. Recife, por exemplo, é a 5ª cidade com maior concentração de favelas. Um perfeito desequilíbrio social, econômico e urbano, amplificando as dificuldades relacionadas à mobilidade: falta de saneamento básico, gestão do lixo (a política nacional de resíduos sólidos aprovada em 2010, levou 19 anos no Congresso Nacional), baixo índice de Desenvolvimento Humano – IDH, altas baixas de violência, serviço e índice de saúde pública precário e insuficiente para atender as demandas crescentes, entre outros. Soma-se a esta catarse a falta de regras claras – as políticas que tratam do ordenamento territorial brasileiro, com a preocupação voltada para o desenvolvimento equilibrado e a organização física das cidades a partir de uma estratégia nacional.

Porém, vamos estreitar este abrangente tema, buscando uma análise curta sobre o principal vilão, indicado por algumas correntes: o velho e tão sonhado “carro”, gerador do individualismo e comedor de estradas. Ele surgiu em 1769 e em 1886 foi patenteado. Também neste mesmo ano, os veículos a combustão surgiram na Alemanha. A produção em massa foi iniciada a partir de 1888. O carro trouxe com ele acessórios: a via de circulação e o conforto. Porém, pasmem! As estradas surgiram em 312 antes de Cristo. Foram criadas para a expansão do império romano. Para dar maior agilidade às tropas. Estradas significam ampliação dos territórios e das próprias cidades. Azar o nosso! Enquanto Roma criou uma rede viária de 150 mil quilômetros, canalizações e aquedutos, penamos pela descontinuidade dessas ações e pela falta de uma espécime de político que provavelmente foi extinto, aquele que pensa além do tempo e dos efeitos do seu mandato – o estadista. Vejamos assim: seria mais correto avaliar e planejar um novo traçado para uma cidade, com uma visão para os próximos 50 anos, criando normas e fiscalização a partir de então ou construir um simples viaduto, ponte ou rua, um mero estêncil que desafoga temporariamente um fluxo doentio, servindo de moeda de troca para acomodar interesses políticos partidários e empreiteiras financiadoras de campanhas? Por gentileza, demore para responder! Em suma, no diagnóstico dessa problemática, vamos pontuar e inserir mais este fato.

A produção anual de veículos projetada para 2013 é de 3,5 milhões de unidades e as vendas projetam um consumo na ordem de 3,8 milhões de veículos. Vamos fazer uma continha rápida: um veículo necessita de uma área de 84 m2 (0,000084 km2) para iniciar um deslocamento, considerando margens de segurança de dirigibilidade. Portanto, necessitaremos de um espaço de circulação na ordem de tamanho da região urbana de Curitiba (319,4 km2) para fazer “andar” essa quantidade anual de veículos. Uma avalanche. Então, a cada ano, temos que disponibilizar e produzir novos espaços. No excesso, poderíamos dizer que seriam necessários 319 km2 por ano para dar a devida vazão das indústrias montadoras e dos ávidos consumidores praticarem o seu direito solitário de circulação e conforto. Diga-se de passagem, salutar!

E por falar em conforto, só agora estamos diante da preocupação pública em melhorar a qualidade do sistema de transporte. Alguns condicionam ao evento Copa do Mundo. Sorte da minoria! Parcela significativa das cidades brasileiras ainda não possuem sistema implantado e quando existe, o interesse mercantilista em conluio com os governos, mantém um desequilíbrio entre a prestação do serviço com qualidade e o lucro auferido. Assim, reina nos céus o interesse individual de cada cidadão em descolar do proletariado, através da aquisição do seu próprio meio de transporte. Recentemente estão divulgando que a bicicleta, de Leonardo da Vinci, seria a melhor opção de transporte. Que fechem as fábricas de veículos, acabem com as perfurações de petróleo, esqueçam os processo de produção em escala, as métricas do tempo e retirem a palavra “conforto” dos dicionários. Assim quem sabe a mobilidade estará no ritmo desejado daqueles que entendem o país.

Crônica: As preliminares no avião e no cinema – tudo a ver

elaborado em 03/11/2012

No último ano fiz enumeras viagens a bordo de aviões comerciais, transportando meu conhecimento e minha força de trabalho à serviço da empresa que atuo como consultor. Paralelamente, nos finais de semana, na qualidade de cidadão comum, cheio de ideias e sonhos, passo a interagir com a vida, exercitando a arte do lazer e do namoro (desde já agradeço a minha marida pela paciência e pelo convívio). O título dessa crônica induz o leitor a fustigar a imaginação, porém adianto que vamos tratar exclusivamente das semelhanças existentes nos procedimentos que antecedem uma viagem de avião e uma sessão de cinema. Será que há semelhanças? Qualificado como observador do cotidiano, tentarei indicar quesitos. Quem sabe também você não concorda comigo. E para não ser enfadonho, a partir do próximo parágrafo todos os detalhes descritos se referem indistintamente as duas situações. Então, faça parte dessa imaginação daqui adiante.

Reserve, pelo menos, uma hora de antecedência para executar esse conjunto de tarefas, que antecede o evento principal. E não chegue atrasado, senão será literalmente barrado. Defina antecipadamente o que deseja fazer. Escolhas de última hora tem grande chance de levar você a se arrepender tardiamente. No saguão será uma oportunidade de encontrar pessoas que fazem parte das lembranças. Circule e veja quem aparece por lá. do Agora é o momento da aquisição ingresso. A escolha do assento também é algo importante. Passar um longo período ao lado de alguém que incomoda é castigo na certa e a eternidade será sua parceira. Se for acompanhado, veja um local estratégico. Aquele especial, que parece deixar vocês quase invisíveis! Se estiver sozinho, reze para que a poltrona ao lado fique vazia ou que não seja ocupada pelo inconveniente de plantão. A vida testa a paciência das pessoas e de vez em quando costuma aparecer alguns desses tipos produzidos pelo cotidiano. Tem o radialista tagarela. Tem o resmungador. Tem aquele que ronca sem cerimônia. E azar ainda pior é quando surge o adiposo. Aquele cidadão, que de cara você já sabe que parte do seu assento será dele, recebendo com frete gratuito, pequenos excessos de dobrinhas. São consideradas pessoas especiais por ter atributo divino, ocupando dois lugares ao mesmo tempo. Aí, meu caro, é ter paciência para conviver e fazer vigilância acirrada pela sua propriedade. Outra estratégia é recuar até pendurar os cotovelos nos ombros. Continue curtindo a interminável fila para obter o ingresso. As empresas procuram disponibilizar mocinhas gentis e esteticamente agradáveis. São eficientes com um discurso resumido. Algumas empresas fazem uso intensivo de tecnologia, possibilitando a alternativa para a compra. Algumas vezes surgem promoções e vendas antecipadas, porém os preços são normalmente indigestos. Ao receber o bilhete fique certo que uma grande etapa foi vencida. Quase meio metro de papel e metade de uma árvore foram gastos para a emissão desse documento de vida curta. Já poderia ter sido substituído por cartão magnético. Fica aqui a ideia! A partir de agora passe a pensar na alimentação. Escolha o óbvio! Poucas alternativas estarão presentes ao seu redor. Tenha cuidado especial com os preços ofertados. São exorbitantes! Até hoje não entendi o motivo financeiro para esse assalto oficial. Cadê o governo e a fiscalização! O negócio tá tão feio, que tem gente levando marmita de casa. Utilize o pouco tempo que resta a seu favor. Tome um café, leia um trecho de algum livro, faça um passeio no entorno comercial, puxe assunto com alguém ou simplesmente fique exclusivamente com você. Afinal, sobrou pouco recurso financeiro! Aguarde o momento do embarque. Será mais uma maratona e uma fila. Com o afã de chegar primeiro ou com o sentimento que os registros de reserva foram todos apagados, uma multidão se acotovela numa nova fila com um ponto de checagem ao final. A checagem do bilhete é outro estágio importante. Um ar de seriedade britânica, proporcionado por um fiscal que não faz o mínimo esforço para quebrar a frieza do momento. Não conheço ninguém que conhece esse pessoal. Será que realmente são humanos? Entregue seu bilhete, ultrapasse a catraca e reze para que tudo dê certo. Documentos adicionais poderão ser exigidos, caso você tenha pouca idade. Ainda assim a fila continuará. Ela estará te seguindo até a última porta. Porém, você venceu mais uma etapa! Ao adentrar poderão ser fornecidos instrumentos adicionais para tornar seu momento mais confortável. Acredito que todo esse ritual é proposital para aflorar o clima de suspense e emoção em cada um de nós. Procure seu assento e acomode-se! Muita gente ainda vai levar um bom tempo para realizar essa proeza. Tenha paciência! Quase todas as etapas já foram vencidas. As luzes serão reduzidas e uma série de mensagens repetitivas e enfadonhas serão pronunciadas. Após muitas instruções e muito blá, blá, blá, finalmente é chegada a hora de desligar o celular. Um potente ruído ocupa o espaço, fazendo pressão nos ouvidos, avisando que é chegada a hora da emoção maior. Pronto! Durante esse curto período vários sentimentos foram ligados e interligados: inquietação, dúvida, angústia, agitação, medo, alegria, irritação e tensão. Desligue-se do mundo e ative o pensamento exclusivamente para essa viagem alucinante. E não se afaste da poltrona, afinal será seu único consolo. Ainda assim, lembre-se do piloto e do operador do vídeo, da aeromoça e da moça da pipoqueira, do comissário e do lanterninha, atores que complementam o cenário, com suas respectivas atuações também similares.

Agora reflita: existe semelhança?!

Crônica: Universo Oculto

by Fernando Cássio, em 27/07/2012

Estou navegando pelos textos produzidos no livro intitulado “Conversando com Deus”, de Neale Donald Walsch. Uma obra envolta numa série de mistérios que se apresentam a cada virada de página. São passagens representadas através de diálogos entre o autor e Deus. A princípio, a contextualização sugere uma forma diferenciada, quase didática, para tratar o tema espiritual. E ao percorrer as abordagens vejo uma tendência filosófica, envolvendo a formação do ser humano e as várias ligações que representam a sua existência. A clareza permite ainda ao leitor uma reflexão sobre a relação homem versus deus e homem versus sua capacidade de autoanálise. Confesso que me atingiu em cheio! Crer em Deus é uma opção individual de cada ser humano, bem como o ateísmo. A manifestação dessa crença no plano coletivo é conceituada como religião. O aceite dos diferentes comportamentos é cláusula incondicional para germinar a pluralidade e o respeito à individualidade em qualquer sociedade.

Trago comigo, desde menino, nos tempos da preleção domingueira da igreja do bairro, uma série de críticas e autocríticas sobre o entendimento desse tema e das práticas associadas a ele. Naquela época, numa tentativa matemática de desacreditar a necessidade da visitação àqueles templos, calculava a soma de todos os defeitos e mazelas individuais, expostas e não declaradas, ali presentes, imaginando o quanto seria difícil para atenuar essa conjuntura, bem como produzir resultados positivos e benefícios. Uma lógica booleana cruel! Hoje entendo a importância social e humanitária que a maioria destes lugares proporcionam, na medida em que produzem uma articulada ação de convivência humana, conforto e fortalecimento psicológico.

Contudo, sempre é conveniente separar a prática individualizada das crenças e das convicções íntimas dos movimentos religiosos. Acredito que Deus já encontra-se habitado em cada um de nós. Na individualidade de cada ser humano, permitindo através do direito do livre arbítrio, que sejam experimentadas ações e reações ao longo das suas trajetórias de vida. Desta forma, somos partes da existência divina e não há como caracterizar distanciamento de algo que está intrínseco em nós. Ao mergulharmos na profundeza da nossa alma, lá estaremos realizando a ligação necessária para esse encontro. Em suma, estaremos compreendendo que somos parte do universo e do equilíbrio das energias que atuam.

Quanto as manifestações coletivas declaradas nos movimentos religiosos, sempre houve uma exacerbada tendência para massificar conceitos, definir regras, julgamentos, caracterizando o medo, o pecado, a limitação da liberdade individual, o fanatismo e os extremismos. Dizem que “religião” é um dos ópios do povo, pois acolhe a letargia da miséria e justifica o sofrimento para alcançar o paraíso. A construção histórica das civilizações sempre demostrou repetidas fusões entre movimentos religiosos, poder e Estado. Nessa trajetória surgiram, entre outros, as cruzadas, os mártires, a inquisição, o fundamentalismo, o Estado Religioso, a variedade de seitas, a controversa guerra ao terror, a primavera árabe e tantos outros movimentos que ainda mantém acesso o elo entre religião, poder e política. No Brasil e ali nos Estados Unidos, movimentações religiosas estão apresentando candidatos políticos vinculados às representações religiosas, como se essa certificação “divina” fosse a única opção válida para garantir os melhores e pretensiosos feitos eleitorais e administrativos.

Assim, considero que o Estado laico sempre será uma utopia e a religião sempre será utilizada como instrumento político, influenciando indivíduos e a sociedade. Tão utópica quanto ao recente conceito da sociedade pós-secular. Quem sabe não é chegada a hora de perdermos a irracionalidade da crença e a banalização do seu uso. O momento de introspecção e sintonia da alma, do corpo e da mente em detrimento do vazio das exigências sociais. O momento para desequilibrar interesses, exercitando ações coletivas em contraponto as posturas meramente egoístas que o sistema insiste em impor. Quem sabe não seria o cerne desse universo oculto…..

Crônica:Como conseguir e manter um namoro – manual prático

Elaborado por Fernando Cássio em 08/06/2012

Você já parou para imaginar como todos nós, ao longo das nossas existências, procuramos por alguém que se encaixe perfeitamente nos moldes e expectativas da nossa razão e do nosso coração? Seria óbvio e natural que todas as princesas e príncipes desejados fossem encontrados, conforme a metragem exigida. Porém temos algumas dificuldades operacionais! Como fazer uma triagem nessa tribo repleta de gente, sonhos e desencontros. O destino seria matematicamente correto, caso a mira do GPS do olhar localizasse facilmente a presa (futuro parceiro ou parceira). Ao contrário, a probabilidade do encontro da alma gêmea se reduz a cada dia. E a dificuldade poderia ser ainda maior! No passado, não tão distante, outras exigências eram associadas – o indomável cavalo branco, a farta quantia em dote e o sobrenome da família. Por sorte, as exigências sociais entraram em colapso, exigindo uma drástica mudança no comportamento e no processo ecológico do acasalamento. Mesmo assim, pensem que ainda há uma difícil tarefa. Como encontrar o sapatinho de cristal ou a botina para calçar seu pé ou alcançar o pé alheio? E o pior, quando acertamos na medida, erramos pelo excesso de ânsia, deixando de enxergar outros valores importantes. Aí surge um novo problema: fim do encanto em curtíssimo prazo.

Ao mesmo tempo, com o advento da web e as redes sociais, tudo indicava que o alto índice dos “sem parceiros” diminuísse, porém o pior aconteceu! O retângulo iluminado cheio de opções virtuais é uma porta para o isolamento. Muitos se predispõem a ficar de cabeça baixa, por horas, desatentos as oportunidades que circundam no seu mundo real. Em suma, todos nós estamos mais egoístas e solitários. E desconfiados. Provavelmente um surto de mineirice está se alastrado pelo mundo, retirando toda a possibilidade do convívio inesperado ou ao acaso. Como encontrar as coordenadas da sua Cinderela ou do seu Shrek? Como manter a mesma paixão de Romeu e Julieta? É! O mundo está cheio de estórias individuais e magias, porém com pouca fantasia. E sonhar exige fantasiar. Viver sem sonhar é enxergar o mundo de forma atravessada!

Portanto, trilhar os capítulos que a vida nos apresenta as vezes exige o apoio de anjos terrestres. E como estamos na semana de caça da alma gêmea, elaboramos uma metodologia que é uma vacina infalível para o desencalhe dos menos afortunados e para manter o sossego daqueles que já estão em parelha. São 03 estágios a serem perseguidos: 1º) Laço; 2º) Âncora; e 3º) Chave de Fenda.

O “laço” representa o momento da escolha e do bote. O nó e a espessura da corda indicam o nível de sorte e a capacidade intuitiva de arrastar a presa. Nunca se arrisque a lançar o laço no escuro, no submundo dos bares e boates. Não gaste lançamentos, isto reduz sua energia intuitiva. E fique na surdina, espreitando sua presa com paciência. Presa laçada é garantia de 30% do espaço conquistado!

A “âncora” representa a 2ª parte do processo. Esta manobra é mais radical e exige frieza! Você terá que fazer o vitimado(a) engolir e aceitar todos os seus defeitos, passado e mazelas, sem chiar. Não afrouxe o nó da corda e faça com que a âncora seja engolida imediatamente. Essência acatada é garantia de mais 30% da conquista do espaço!

A “chave de fenda” representa o momento mais difícil. Refere-se a manutenção da relação. E as relações se afrouxam com o passar dos anos. Utilize de todas as artimanhas para não deixar cair o padrão. Você deve ser a atração. A novidade não pode ser imbatível! Conserve as atitudes, o carinho, a atenção e ganhe mais 30% do espaço conquistado.

No mais, reze para Santo Expedito, pois nem toda teoria é infalível. E se atingiu o sucesso, então comemore o Dia de São Valentim (12 de junho), acoxando com fervor a sua cara metade, pois o amanhã não tem validade registrada. Enquanto isto mande ver!

Crônica: Amnésia Doméstica

Joana D’Arc foi a precursora, travando batalhas no desafiante ambiente de ocupação exclusivamente masculino, atuando com êxito e tornando-se exemplo para as gerações seguintes. Várias joanas se sucederam, contrapondo a opressão ao longo dos tempos. Assim propiciou uma produção de ativistas e um movimento feminista atuante, com desejo de transformações e uma luta permanente por garantias, conquistas e melhorias.

Mas quem é essa nova mulher? Cada uma delas carrega no DNA o histórico das gerações. Apresentam-se como verdadeiras camaleoas, executando e assumindo múltiplos papéis. Reflexo da conveniência que a vida lhes impõem. Mas também utilizam-se das fraquezas masculinas enfeitiçando, de forma imperceptível e sem qualquer antídoto, a quem transita no seu caminho. E ainda, favorecem despretensiosamente fantasias que ultrapassam o limite racional e o imaginário. Desta forma, vão conquistando espaços e transformando a sociedade, a exceção dos contornos de violência que ainda sofrem. Tenho acompanhado essa evolução e presenciado cenas inusitadas, as quais também tive oportunidade de conviver, que caracterizam e insinuam mudanças no comportamento de homens, mulheres e da relações.

Essa crônica está baseada nessas observações, no cotidiano e na sociologia de botequim. Percebo que a mulher moderna perdeu, completamente, o dom da casa e da localização, no seu GPS de herança. Basicamente a localização da cozinha. De propósito ou por conveniência! Quem sabe! Felizmente, sinto que sobreviveu o dom da criação e da proteção materna. Essencial para garantir a continuidade da raça humana. Ufa! Ainda bem!

E o que dizer desse estranho ambiente chamado cozinha? Bem, a cozinha é o ponto culminante da liberdade feminina. Nos últimos dias troquei uma prosa com uma jornalista gaúcha que mandou o noivo usar o “google” para melhorar o seu desempenho. Pasmem! Desempenho culinário. E o pior! Os resultados foram positivos. A ela coube a árdua tarefa de avaliar e monitorar. E vale salientar que o assunto “gestão por resultados” está na moda. Tudo agora exige números e desempenho. E isto nos leva a crer que o homem encontra-se na condição de sexo frágil. Aquele que não atinge os resultados esperados é peça fora do baralho na métrica feminina.

A cozinha mudou de propriedade. E a conveniência nos exige a assumir uma vertente não tão explorada no universo dos machos. Moderno é ser cozinheiro para a mulher amada. E quem não consegue seguir à risca o ditame é ultrapassado e machista! Me desculpem a lógica booleana.

Lá em casa não é diferente. Nos finais de semana mantenho a imagem de homem moderno. Meu grande amor me acompanha nas produções dos quitutes domingueiros. Devidamente instalada em uma confortável poltrona, bem próxima a cozinha. Mantém o controle do nível da cerveja nos nossos copos e aguarda pacientemente o momento da degustação. Um dia desses quase fui surpreendido com um excelente frango à parmegiana, elaborado por ela. Teria me enganado, e enganado a sua própria gênese, se não fosse pela esquecida caixa de congelado na lixeira.

Assim, caros companheiros, sugiro fazer uma análise profunda, avaliando particularmente o seu nível de amnésia doméstica, bem como o da sua parceira. Seria uma atividade vital para a continuidade da relação. E rezem por dias melhores. Lembrem-se disso: elas estão aí, almejando um cozinheiro, centroavante goleador, dançarino, risonho e sarado homem. Se possível com dote e sem mãe. Salve-se quem puder!

crônica: Táxi! Táxi!

By Fernando Cássio, em 27/11/2011

O serviço é um dos mais antigos que se tem notícia. Nas ruas da Roma antiga já se utiliza o riquixá. A cidade de São Paulo detém o maior número, com mais de 35 mil veículos cadastrados. Imagine uma cena urbana envolvendo três fatores: falta de veículo próprio; uma situação de emergência e a dificuldade de mobilidade. Não tem como pensar nesse momento, senão num táxi. Ele é a única solução e a melhor invenção para este momento! Caso você seja um contumaz motorista não há como evitar aquela desconfiança inaugural ao embargar. Vários questionamentos ocultos surgem. A rota está correta? Vou ser enganado? Ele dirige tão bem quanto eu? Segure a emoção e siga. Apenas referencie o ponto geográfico para onde deseja ir. Somente! Deixe a cargo do taxista, pois ele não permite nem que o “google maps” ou que o “GPS” faça o serviço. O taxista mantém a cidade, os trajetos e o desenho cartográfico na ponta dos cascos e na memória. Existem algumas táticas que poderão assegurar confiança durante o trajeto. A princípio, assuma a postura de psicólogo. Questione o indivíduo ao volante, na tentativa de descobrir a personalidade do profissional que conduz o seu destino. Neste momento seus batimentos estão a mil! Invoque São Cristovão e São Fiacre, ambos protetores dos motoristas e taxistas. Também, se for devoto, peça a intervenção de São Expedito.

Para facilitar a vida dos passageiros, minimizar a tragédia e acalmar a pressão arterial, vamos relacionar alguns tipos mais comuns de taxistas, identificando as características psicológicas mais marcantes daqueles que labutam e trafegam diariamente no cotidiano das cidades:

• Babá – encarna a tarefa dos ausentes pais ocupados. Assume o frete pelo transporte das crianças, nas atividades educacionais e sociais. Tem paciência acima da média da população.
• Adotivo – assume o frete pelo transporte dos idosos, apoiando todas as demais atividades geriátricas. Assume a responsabilidade dos familiares sempre ocupados.
• Azarado – sua principal tarefa é transportar as sogras alheias. Ouve tudo que ela diz em excesso e não retruca. Também não comenta nada com os vitimados genros e noras.
• Eunuco ou ursinho carinhoso – é o fiel escudeiro do marido ocupado. Leva a esposa para todos os lugares possíveis. Muitas vezes, termina assumindo, por completo, a tarefa do chefe da família.
• Frete pago – trabalha exclusivamente na noite com o transporte de enfeitadas senhoritas, solicitadas por ávidos clientes. Discreto. Além do valor do taxímetro, abocanha parcela dos interessados. Atua numa rede social ativa e dinâmica.
• Ariano – é aquele contador de causos nordestinos, com riqueza de detalhes e arrudeio. A corrida acaba e você fica sem saber o final da estória.
• Profeta – é o tipo adivinhador e de pouca conversa. Utiliza-se das expressões “hoje vai chover”, “tá calor”, “vai engarrafar”, etc., para manter um grau mínimo de relacionamento com o passageiro. Despretensiosamente funciona como um twitter ao volante.
• Politizado – é um verdadeiro comitê ambulante. Sempre está disponível para fazer uma rápida análise política do momento. Conhece tudo sobre a cidade, pois consome diariamente as informações das rádios. É democrático até saber em quem você vota.
• Manchete ou jornalista – conhece os detalhes da vida de todos, inclusive da sua. Guarda datas, circunstâncias e fatos que você queria esquecer. É o jornal e o facebook das manchetes urbanas.
• Galanteador – detém o título declarado de maior conquistador do mercado. Evita corrida masculina. É o conselheiro sentimental da hora. Tem um longo acervo de estórias mirabolantes, envolvendo suas passageiras. Apresenta-se como a solução para os problemas femininos. É o galã do volante.
• Home bank – é o facilitador financeiro. É praticamente uma agência bancária itinerante. Troca dinheiro, faz pagamento, aceita cheque, aceita cartão, efetiva penhor, pendura a conta e faz promoção.
• Anjo da Guarda– tem a árdua tarefa de conduzir os bêbados até as suas residências. Trabalha na madrugada. Dispõe de um arsenal para primeiros socorros. Não tem vício. É crente. Desenvolveu um dialeto próprio para a comunicação com os alcoólatras e ressacados. Conhece todos os pontos de café matinal da cidade.
• Estiloso – possui um jeito próprio e incomum. É o figurinista do veículo e do seu próprio uniforme. Valoriza negativamente o veículo enfeitando com redinha, cachorro de porcelana que balança a cabeça, gato de pelúcia que acende os olhos, teto com luzes de várias cores, forro de onça nos bancos e no volante, caranguejo na marcha, pneu tala larga, jantes brilhosas e um som digno de qualquer boate de beira de estrada.
• Piloto – se disfarça de taxista para exercitar ao pé da letra a palavra “corrida”. Está sempre à frente dos demais e em velocidade superior à máxima permitida. Transmite gratuitamente ao passageiro a mesma sensação de estar em uma montanha russa. Conversa pouco e acelera muito.
• Cascão – mantém em conjunto com seu veículo, um destacado aroma impopular. É uma mistura química e biológica que invade, com ardência, as narinas alérgicas dos passageiros, atordoando o olfato e o pensamento. Tende a provocar náuseas nos desavisados. Nessa circunstancia até a ventilação se esconde e você reza para a viagem acabar.

Agora, a sorte está lançada. Façam uso do serviço e exercitem a análise. Não esqueçam que estes profissionais estarão sempre prontos e atentos para ajudá-los. Não há dúvida que a interminável jornada será um rali urbano, sendo você o co-piloto, sem direito ao plano de navegação. Aproveite o espírito aventureiro para curtir as ruas esburacadas da cidade e os engarrafamentos. Como todos os problemas do país serão resolvidos até a Copa do Mundo, então asseguro que haverá apenas uma bagunça coloquial no futuro. A mistura dos “oxente” e dos “please” em cada táxi. Que haja paciência e não haja xenofobia. E que todos os santos, em comunhão, ajudem também.

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